Um soldado de chumbo

Jan chegava sempre a casa do Tio Otto muito mal disposto. A casa do tio encontrava-se nos arredores de Augsburg, a meia hora de carro de Munique, a cidade onde Jan vivia. Aquelas últimas curvas, depois de sair da autobahn e antes de chegar ao portão da casa do tio, faziam-no sempre enjoar. O Tio, vivia com a Tia Franziska numa enorme mansão de pedra castanha com um grande parque em torno. O chão da casa era todo de mármore branco e no grande hall de entrada, posicionadas como sentinelas de cada um dos lados da porta de entrada, estavam duas ânforas romanas cheias de incrustações marinhas. Jan gostaria um dia de poder arrancar aquelas apetitosas incrustações mas nunca tinha tido oportunidade de o fazer. Nesse dia vinham visitar o tio pois este fazia anos. Muitos. 80 e tal tinha dito a mãe. Já ninguém sabia quantos anos tinha o Tio Otto. Demasiados, dissera o pai antes de saírem do carro. Na realidade não eram tios mas sim tios-avôs. O Tio Otto era irmão do Avô Günter, o pai da sua mãe, e que Jan sabia ter morrido na guerra. Em que guerra não sabia bem, mas a mãe tinha-lhe dito que tinha sido numa guerra muito má e que o Avô Günter tinha morrido congelado numa cidade com um nome esquisito, num país longínquo. A mãe gostava muito do Avô Günter mas Jan sabia que ele tinha morrido quando a mãe era pequenina e a família ainda vivia em Berlim. Jan já tinha ido ao cemitério algumas vezes com a mãe ver o túmulo do Avô e sempre se interrogava se teriam trazido o avô congelado de volta para a Alemanha e se estaria ali, debaixo da terra, feito de gelo, duro e transparente.

Quando Jan entrou no grande salão pela mão de sua mãe, todos se viraram e um brouhaha percorreu a sala. Os amigos e amigas do Tio Otto e da Tia Franziska estavam sentados em sofás ou conversando de pé espalhados pelo salão. Jan lembrava-se de alguns deles de outras visitas que ali tinha feito. Estava aquele gordo, com uns óculos redondos e uma cicatriz por cima do olho e aquele que tinha duas bengalas e falava muito alto. Esses estavam sempre juntos. Eram também muito velhinhos como o Tio. Estava também aquela senhora de cabelos amarelos que fumava uns cigarros muito fininhos. E ao fundo da sala, a conversar com o Tio Otto, estava também aquele que não tinha uma mão. Tinha em vez dela, uma espécie de uma pinça de ferro brilhante. Desse, Jan tinha medo. E tinha que confessar que um bocadinho de receio do Tio também tinha. O Tio Otto era muito alto e magro, com o cabelo cortado muito curto dos lados e na nuca tendo apenas uma espécie de estranha escova grisalha no cocuruto da cabeça. Usava sempre botas altas e um casaco cinzento que lhe parecia sempre estar um pouco apertado. Jan nunca o via alegre e quando sorria fazia apenas um esgar com os lábios que durava apenas alguns segundos, pelo que se seguia uma espécie de soluço que o fazia voltar à sua seriedade habitual e hirta postura.

Mas que criança encantadora! — disse uma das amigas da Tia. — Estás cada vez mais alto e forte meu rapaz!  – disse o senhor com os óculos redondos sorrindo, desgrenhando com uma mão gorda a cabeleira loira de Jan — Otto! – disse para o outro lado da sala – aqui o teu neto está uma maravilha! — O Tio Otto virou a cabeça e lançou-lhe um olhar glacial – Não é meu neto. É neto do meu Irmão Günter! — proferiu. E de imediato, lançando um olhar na direcção de Jan e esboçando um sorriso, completou enfático – mas é verdade. Um belo naco de gente, este rapaz. Um belo naco de gente! – Ao terminar a frase soluçou, o sorriso desvaneceu-se e voltou ao seu semblante carrancudo e à sua conversa com o amigo da pinça.

A mãe tinha-lhe contado uma vez, após as suas insistentes perguntas sobre o curioso Tio e os seus estranhos amigos, que a seguir à guerra em que tinha morrido o Avô Gunter, o Tio Otto tinha regressado da Holanda, onde tinha estado durante a mesma, e tinha ganho a vida a vender aspiradores. Durante muito tempo, Jan achara que vender aspiradores era uma actividade muito importante e em que os que a praticavam ganhavam muito dinheiro. Todos os amigos do Tio Otto aparentemente tinham também, durante toda a vida, vendido aspiradores. Aliás, eles aparentemente trabalhavam todos juntos. Eram aquilo a que tinha ouvido o pai referir-se, em Inglês, e naquele tom que só usava quando se referia ao Tio Otto e aos seus amigos, como os partners in crime do Tio Otto. A verdade é que Jan tinha uma vez e às escondidas, ouvido o pai dizer que o Tio Otto tinha sido um homem muito mau e que tinha feito coisas terríveis lá na Holanda. Jan lembrava-se por vezes dessa conversa e por isso tinha um bocadinho de medo do Tio. Mas a verdade é que os tios eram quase sempre muito simpáticos com ele. A Tia Franziska dava-lhe sempre chocolatinhos e doces, e em dias de festa como este, quando o pai não estava a ver, o Tio Otto dava-lhe a provar um gole de Champagne que era um vinho cheio de picos como a coca-cola. Mas acima de tudo e sempre que lá ia a casa, o Tio Otto mostrava-lhe os soldadinhos. Ele tinha uma colecção de soldadinhos de chumbo fantástica. Jan nunca a tinha visto toda, mas o Tio, sempre que ele lhe pedia, subia ao escritório e trazia-lhe alguns para ele os ver. Não podia brincar com eles mas podia vê-los de perto na sua mão.

Nesse dia, Jan não sabia o que fazer. Nas festas de casa dos Tios, normalmente brincava lá fora no parque com mais uma ou duas crianças, netas de amigos dos tios, que costumavam lá estar. Nesse dia no entanto, Jan era a única criança e para mais o tempo estava húmido e frio. O pai, como de costume, sentara-se a um canto a ler o jornal, alheado de tudo o resto. A mãe estava numa roda com a Tia e as suas amigas, e o Tio, com os seus amigos, estava sentado no sofá grande do salão a conversar. Fumavam charuto e Jan não gostava nada do cheiro e ainda para mais deviam estar a falar de aspiradores e por tudo isso achou que não era boa ideia juntar-se a eles. Comendo uma grossa fatia de Sachertorte, começou a pensar nos soldadinhos de chumbo. Lembrava-se de uns coloridos e cheios de penas nos capacetes. Pertenciam às divisões imperiais prussianas, tinha-lhe dito o tio. Lembrava-se também de uns outros….

Jan olhou para a escadaria que levava ao primeiro andar. Nunca a tinha subido. Tinha visto o Tio a subi-la várias vezes e a entrar na porta do escritório que era a primeira à direita no alto das escadas. Naquele momento ninguém reparava nele. Talvez pudesse ver toda a colecção. O Tio com certeza que não se ia importar. Com o coração a bater, subiu a correr a escadaria, abriu a porta e fechou-a atrás de si. O escritório estava envolto em penumbra. A janela estava fechada e Jan não conseguia ver onde estava e por isso acendeu a luz. À sua frente o escritório encheu-se de luz. Ao fundo do escritório estava uma enorme vitrine, com duas prateleiras de vidro. Dezenas e dezenas de soldadinhos de chumbo encontravam-se ali alinhadas, numa espécie de parada militar, como se tropas de todos as armas e acabadas de chegar de todas as épocas da história do homem, se tivessem ali reunido para combater uma grande batalha em miniatura. Jan dirigiu-se à vitrine, não resistiu e abriu uma das delicadas portas de vidro. Com muito cuidado agarrou um soldadinho e sentiu-lhe o peso na mão. Era magnífico. Tinha um capacete com uma ponta em bico e uma farda azul, com um capote até aos pés. Tinha uns grandes bigodes enrolados na ponta. Era um dos prussianos. Quanto gostaria de o ter só para si.

Jan estava ainda a admirar o seu soldadinho de chumbo quando de repente lhe pareceu sentir uma presença atrás de si. Só quando se virou e levantou o olhar é que o viu. Deu um salto de susto e largou um grito abafado. De pé, a olhar para ele com um sorriso ameaçador, estava o Tio Otto.

Só passados alguns segundos, quando o seu coração começou a bater mais devagar e Jan olhou bem para a sua frente é que se apercebeu de que tinha sido vítima de uma ilusão. Parecia mesmo o Tio Otto em pessoa, pensou aproximando-se da parede. Diante de si estava um quadro, comprido e até ao chão com um retrato do tio em tamanho natural. Estava vestido de soldado. Tinha uma farda elegante e um boné de pala. Tinha calçadas as suas habituais botas de cano alto e um dos seus pés estava apoiado na jante de um automóvel do qual se via apenas a parte lateral. O Tio Otto parecia muito novo no quadro. E tinha um estranho sorriso que Jan nunca lhe tinha visto. Reparou também no boné. Bem no meio, por cima da pala, estava uma caveira como aquela dos piratas. Um pirata o Tio Otto? A vender aspiradores? No braço direito, reparou ainda que o Tio tinha uma faixa encarnada. E naquela faixa, estava um símbolo. E aquele símbolo Jan conhecia. Já o tinha visto várias vezes pintado em algumas paredes da sua cidade. E tinha-o visto uma vez em casa, num livro do pai.

Jan! O que estás aqui a fazer? – Jan estremeceu de novo em sobressalto. Era o seu pai. – Vamos imediatamente lá para baixo Não te………- o pai de Jan interrompeu a frase e ficou também a olhar para o quadro. Pareceu ficar preso na frase de boca aberta e a mão reprovadora suspensa no ar. O seu estupor durou apenas uns segundos. Depois voltou a olhar para Jan — Não te quero aqui em cima. Se o Tio Otto te apanha aqui estás em péssimos lençóis. – Agarrou Jan pelo braço, deu uma última olhada furtiva para o quadro e desceram os dois, os degraus da escadaria que conduzia ao andar debaixo.

Já só no carro, de volta a Munique, Jan se apercebeu que agarrava ainda com força na mão esquerda, o soldadinho prussiano. O Tio iria seguramente dar pela falta de uma peça da sua colecção! Nunca mais podia voltar a casa do tio. Que vergonha. Que situação aquela em que se tinha metido.

Jan não teve oportunidade de voltar a casa do tio e sofrer a vergonha de ver o seu segredo descoberto. Passadas três semanas da festa de aniversário do Tio Otto, este morreu durante o sono. — Morreu como um santo — referiu a mãe à mesa do jantar no dia em que souberam a notícia. Do outro lado da mesa o pai lançou-lhe um olhar penetrante e cúmplice.

E desde esse dia nunca mais se falou do Tio Otto em casa de Jan.

PS: Tenho um amigo alemão, com quem nos últimos anos, tenho vindo a conversar muitas e muitas horas sobre os anos da Alemanha Nazi e da segunda guerra mundial. Fala de tudo com o grande à vontade que finalmente começa a ser característico da geração de Alemães nascidos nos anos 60 e que não carrega as culpas que carregam (com ou sem razão) as gerações anteriores. Este meu amigo teve um tio-avô que chegou a um alto cargo nas SS e foi um comandante destacado na Holanda durante os anos da ocupação. No final do conflito, este tio foi condenado como criminoso de guerra e esteve muitos anos preso. Ao ser libertado no final dos anos cinquenta fez fortuna como comerciante de aspiradores (!). Este meu amigo sabe hoje na realidade que o seu tio e os seus associados eram todos ex-SS e que a actividade que desenvolviam era uma fachada para branquear dinheiro proveniente de fundos e reservas criados durante a guerra e que redes de ex-SS conseguiram manter após o final da mesma. Em miúdo, o meu amigo recorda-se de ir a sua casa, dos seus estranhos amigos de cabelo cortado à escovinha e velhas feridas de guerra e de ter uma vez entrando no seu escritório, e visto um retrato a óleo, enorme e sinistro, com o seu tio em uniforme com a suástica no braço. A história aqui em cima é naturalmente uma fantasia à volta desse evento marcante na vida deste meu amigo.

PS2: Se tiverem ficado a interrogar-se que coisa é uma Sachertorte, terão de admitir que não são fãns do Nanni Moretti e que têm que vir a Milão ou a Munique rápidamente para poderem comer uma fatia.

Grande Pedrada

Gosto muito de pedras. Grandes, brutas, escuras. Empilhadas em antas e dólmenes, dispostas em cromeleques e stone circles ou simplesmente erguidas, isoladas, no meio do campo, das árvores e do capim.

Encantam-me a sua simplicidade e despojamento. Fascina-me o forte sentimento que terá impelido homens e mulheres com meios tão limitados a esculpir e decorar, arrastar e rolar pedras enormes e pesadas, a dispô-las com rigor e precisão ali, naquele sítio e naquela posição. A apontar já para os céus, como, séculos depois, as catedrais góticas. Toca-me profundamente o que exprimem, de consciência da sua fragilidade e finitude e de abertura à transcendência, com entrega e esperança. Mas também o que envolvem de libertação de um quotidiano duríssimo, de elevação face ao mero objectivo de sobreviver, para olhar e compreender o mundo e nele deixar uma marca. A tornar esses remotíssimos antepassados tão próximos de nós.

Há muito que esta minha aficción me leva a percorrer caminhos de terra, pó e lama, a aventurar-me, de máquina fotográfica em riste, por matagais de ervas que faço por imaginar despovoados de insectos e de cobras, a suportar o olhar pasmado de rebanhos de ovelhas. Quase sempre no Alentejo. E durante anos a sonhar com Stonehenge.

Há tempos o meu irmão foi viver para Inglaterra. Quando me explicou-me para onde, eu não queria crer. O Google Maps confirmou-mo: perto, muito perto de Stonehenge. Deixei-o instalar-se e não tardei a aparecer-lhe, cheia de vontade de passear. Sugeriu Oxford e Windsor. Exigi Bath, because of Miss Austen. But first things first: Avebury e Stonehenge. Exibi mapas e resmas de prints. Acedeu, com a resignada sabedoria de quem já leva muitos anos disto.   

A parte do homework fora desconcertante, to say the least. Julgava eu que aquilo se visitava como o cromeleque dos Almendres: acesso livre (talvez pagando umas libras). O site advertia, porém, que para ir inside the stone circle teria que book in advance. Estranhei as horas: entre as 5 e as 8 da manhã (ou ao anoitecer). Mas mais ainda o regulamento de acesso, cuja leitura me era sugerida. Proibia, muito razoavelmente, que se trepasse às pedras e se escavasse o chão. Mas também que se celebrassem casamentos, se queimasse incenso ou outras substâncias, se acendessem fogueiras e se tocassem instrumentos musicais, desde que não acústicos. Permitia, contudo, que me apresentasse descalça. Também me era exigido que preenchesse um impresso, no qual, sendo o caso, deveria dar full details acerca da cerimónia que tencionava levar a cabo. Era tudo tão bizarro que telefonei para lá. A senhora explicou-me que as visitas normais decorriam a horas normais e apenas à volta do stone circle. Via-se tudo, tranquilizou-me. Vencida, não convencida, lá me resignei.      

Foi fantástico. Muito mais grandioso e belo do que eu alguma vez imaginara. Andei à volta. Várias vezes e nos dois sentidos. Fotografei. Fiquei a saber que algumas pedras, partidas à pedrada, vieram do País de Gales, em jangadas, pelos rios Avon e Frome. Impressionou-me a exacta orientação do conjunto em função dos pontos cardeais relevantes e o perfeito alinhamento das pedras do interior, de modo a captar e reflectir os raios do sol em certas épocas do ano. Vim de lá feliz da vida. Dreams come true, after all.

Voltei há meses. Faltavam dias para o solstício. Havia druidas, vindos de toda a Inglaterra e não só, acampados nos terrenos circundantes. À saída não resisti e fui vê-los, de perto. Sozinha, porque o meu irmão e filhas, que consideram muito embaraçoso este meu hábito de meter conversa, fugiram espavoridos para o carro. Eram uma simpatia, os druidas. Deixaram-se fotografar, explicaram-me quão great eram os festejos e os rituals que se iniciariam em breve. Contei-lhes do meu equívoco, na primeira visita. Silly me, quando afinal se via tudo e tão bem, assim de fora. Oh no! disseram logo. You have to go inside, next time. The stones are huge! Time seems to stop! And the silence, the echo! It’s really different, unique! You should come before sunrise! Vim de lá a pensar naquilo. E continuo encrençada.  

É este, afinal, o grande problema das pedradas. Por mais intensa que seja a dose actual, a próxima tem que ser maior. Huge. Seja. Eu depois conto.

De que é gostamos quando gostamos?

Há coisas de que, sem esforço, gostamos. Por unanimidade e aclamação. Gostamos mesmo. Do lindo sol, do sabor fresco da cerveja ao pé do mar, da espumosa exuberância do champagne, de deitarmos a cabeça entre as amadas coxas. Vivemos para isso, a pensar nisso. Sabemos que é aqui e nesse aqui que reside a felicidade.
Então, porque é que nos comove tanto que se cante assim, mesmo quando o que assim se canta é a nostalgia de um tempo só de heroísmo e sacrifício?!

Ou porque é que tanto nos exalta e alvoroça o ritmo das botas que marcham, a imponência dos exércitos em parada, da patriótica multidão unida em torno de coisa quase nenhuma?!


Desabafos de experimentalista

Oh no, kryptonite is destroying my work.

Augusto, prazer em conhecê-lo!

Para além do tão envolvente e angustiante post abaixo, aqui ao lado o Ruy Vasconcelos apresenta-nos um “Midas de frases curtas”, um conversador que vale a conversa inteira e nunca acabada. É o nosso mais recente “querido morto”. Andou por aí, na “madrugada sonolenta, de bolero em bolero” e, agora, está “com a vida que pediu a Deus”.

Arquelogia de um futuro sem retornos

Barbara Kruger, My Pretty Poney, 1988

Um velha short-story com meia e doze notas de rodapé

 

Aos quinze, ela foi a um show de rock.i E aprimeravistou-se amando um caraii da idade dela. Foram cinco anos de violentas convulsões. Como são os segundos partos, essa muda de pele. Ele foi para os Estado Unidos, por um ano. Intercâmbio cultural. E lhe deu um fora por MSNiii. Ela passou uma semana na treva do quarto. Sem livro, sem internet. Só com sua música e um jejum. Quer dizer, com a música deles. A mesma canção. De novo. E de novo. E depois silêncio. Profundo silêncio. Silêncio instalado após saber que não ia mais se matar. Seguiu vivente. Teve namorados outros. Poucos. Casos. Alguns a princípio. Depois muitos. Simultâneos. A rodo. Pulou de cama em cama com um percevejo.iv Cheia de mágoa até a raiz dos cabelos castanhos claros. Do delicado rosto com o sinal acima do sobrelábio esquerdo. Quanto mais maltratavam-na, caiam em seu gosto. Porém desgostava na carreira. Logo a seguir. Como se enjoa de um chá. Criou uma ciranda de mistério à volta de si em torno dos vinte e cinco. Uma espécie de vestido opaco que não deixa ver as formas. Chorava de noite. Sorria de dia. A desfaçatez passou a ser seu orgulho. Só conseguia transar sem estima. Por esporte.v Mecânica. Passatempo. Mero instinto? E lhe causava arrepio a possibilidade de voltar a sentir.vi Para um amigo fotógrafo posou vestida à grega segurando uma grande maçã mordida. Então começou a viver mais na internet que fora dela. Juntou-se a um grupo de visitadores de lojas de decoração: Le Décor du Fort. Mantinham blogues e intercâmbios. Visitações a lojas de grife e brechós eram muito mais esporádicas que o que viviam na virtuália. E por todos os poros virtuais lá estavam: redes sociais, transmissões em tempo real, jogos, frases de efeito, mensagens por celulares e entropias outras.vii Mil noites e uma socados em seus quartos apertando teclas. Trocavam fotos, canções, caprichos, sugestões de novos sítios.viii Havia zelos como os há entre amigos. Entre iniciados. Círculos de giz. E ela pairava acima de todos, como a única janela na parede de pedra chupa o olhar do passante. Como o quartzo limado de sol. Um diamante moreno claro desejado por homens e mulheres. Imponente em sua volubilidade. Quase uma gnosiologia, Le Décor du Fort. Eram ingênuos, opinativos. Felizes, no entanto. O gordo estudante de engenharia civil. O magro estudante de engenharia elétrica. A publicitária frustrada. A risonha apresentadora do telejornal. Quase todos.ix Ela não. Passaram os anos. Obcecada por casamentos, foi madrinha de uns dez. E quase foi do seu próprio. Casou no tempo certo. Viçosa, felina. Como um jaguar atravessando um rio. Mas mesmo depois de casada, ficou para tia.x A rigidez da dor desenhou-se então em seu rosto, sem mais criptogramas no dealbar da velhice. Separou-se. Como metade dos de sua classe e geração.xi Celibatou-se. Aposentou-se como assessora de imprensa da Assembleia Legislativa. Morreu magra e infeliz. De câncer no pulmão. Como morrem os tristes.xii Mesmo sem ter fumado um cigarro na vida. Um leve sorriso nos lábios ainda era a linha que podia, devia ter dito. Uma frase que reteve na ponta da língua. No vértice do fôlego. Anos. Nos artelhos aos flancos do teclado. Jamais pressionados, os caracteres que não se sequenciaram nunca para forma de sentença. Aquele não dito. Breve, decisivo. Que moldou seus lábios num sorriso leve quando o corpo enrijeceu. A única frase que devia ter dito. Mas não disse. Num brinquedo antigo e precário. Chamado MSN.

i“Shows de rock” seriam algo análogos aos nossos atuais drunkards, porém como bem menos interferência de comandos suprassensíveis, a imposição de uma música a um público passivo, não interativo, e a impossibilidade de contato via emissão cerebral.

ii“Cara” eslango brasileiro arcaico para “gajo”, “zola”, no Brasil de hoje. Em Portugal e Africanidade, “rapaz”, “cabra”.

iiiPrimitiva modalidade de comunicação pela “rede mundial” quando os “computadores” ainda eram acoplados a teclados com letras e caracteres. No início, ainda alâmbricos. Muito popular, sobretudo entre jovens, do início do sec. XXI da Era Comum.

ivO suficiente para ser odiada por metade das esposas e namoradas da, então, emergente alta classe-média, na Aldeota.

vDuvida-se da eficácia desta assertiva. Uma vez que havia uma veemente grau de paixão em alguns esportes de então, à exceção do críquete. Notadamente no futebol e no carnaval – que começou como algo lúdico, sem uma característica propriamente esportiva e restrito a alguns dias que precediam a Quaresma, no antigo calendário cristão.

viA acepção deste expressivo vetorial desinenciado é completamente distinto da nossa. No sistema moral de então preponderava uma sanção entre afecção e sexo(?). Embora isso quase sempre não se cumprisse fora dos códigos e da “razão tolerável”, para citar o téorico angolano Manuel Fonseca Mourinho.

vii“Redes sociais”, “transmissões em tempo real”, “jogos [eletrônicos]”, “mensagens por celulares” eram modalidades de comunicação pré-teledata, no que se chamava “internet”, ou “rede mundial de computadores”. Redes sociais eram avós das nossas talktos. Jogos eram ainda da fase eletrônica ou virtual, uma febre á época. Ao ponto de um casal da extinta Coréia [província da União do Pacífico] gastar doze horas por dia criando uma bebê virtual enquanto a filha de três meses morria de inanição. “Celulares” [“telemóveis”, em Portugal, província da atual Periféria Europaica] eram aparelhos de comunicação pré-teledata, manejados por… teclas pressionáveis, ainda desta vez. Sem nenhum comando de onda cerebral. Bastante precários e a funcionar com baterias recarregáveis de curtíssima duração.

viii“Sítios” [“sites” no Brasil e nos Estados Unidos pré–latinos] eram, na internet, precursora da rede infraespacial de teledata, os avós de nossas “tabs”. Funcionavam em grandes e desgraciosas geringonças que ocupavam imenso espaço e geravam uma descomunal quantidade de lixo intermitente. E mesmo os portáteis pesavam alguns quilos. Era “o computador”.

ixHá quem censure essa distância entre este “quase todos” e ao que se refere “felizes, no entanto”. Também suspeita-se que o “quase todos” possa estender-se a “eram ingênuos e opinativos”. Mas essa hipótese parece haver sido descartada pela maioria dos exegetas pós-contemporâneos.

xDescobriu-se que seu útero era atrofiado, não ancho o suficiente para envolver um feto.

xiSegundo dados do antigo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atual CGEBS (Conservatório de Geoestatística do Brasil e Suramérica), 46% dos brasileiros de alta classe-média nascidos na década de 80 do século sec. XX divorciaram-se. Uma estatística ainda bastante tímida, mas já encorajadora para a era Pre-Hecatômbica.

xiiDe acordo com o médico, professor universitário, escritor – jornalista televisivo, de espessa ressonância – Dr. Drauzio Varella, o câncer no pulmão estaria intimamente relacionado ao uso do tabaco, à excessiva introspecção, à depressão e às crises de pânico. Todos esses “sintomas psicossomáticos”,[*] por seu turno, associados à dificuldade de comunicação e relativa infelicidade ou insatisfação consigo próprio também entravam na pauta. Esta teoria, bastante propagada na primeira década do sec. XXI, chega a tirar riso. A televisão detinha, então, grande impacto sobre a população do país. O Dr. Varella fazia muito sucesso na extinta Rede Globo, cujo forte era o folhetim eletrônico, denominado de “novela”. O formato do folhetim vazava, no entanto, para o jornalismo, a crônica social, o comentário político, a documentaridade, etc. De fato, a teoria do Dr. Varella pode soar extremamente divertida nos diascorrentes. Pois todos sabemos que o câncer no pulmão, doença quase extinta, é provocado por substâncias que contém látex, como as gomas de mascar e o açaí, entre outras plantas resinosas ainda encontradas nas microreservas da Amazônia. Entravam também na composição das “sodas”, como no caso da popular e intragável Coca-Cola. Daí a razão da alta incidência de câncer no pulmão entre os xamãs indígenas ou os integrantes das seitas Santo Daime e União Vegetal, que, em seus rituais, ingeriam uma beberragem resinosa chamada auasca, cuja origem remete aos índigenas da selva peruana. O látex está na composição do papel. Suportedata por excelência do período. Também usado como envoltório do tabaco.

[*] O conceito “sintoma” ainda era usado nas escolas e na prática da paramedicina.

 

 

* * *

11 de Março

Faz hoje 35 anos. No dia 11 de Março de 1975, Portugal, que então vivia tudo sem espanto, assistiu a um golpe de estado que nacionalizou quase todos os grandes grupos económicos. Banca, seguros, transportes e o diabo a quatro que é o que mais e melhor move o êmbolo do capital. Escapou o SLB!
Passo a vida a ouvir elogios a ardentes e vibrantes visionários. Acabo invariavelmente, e dez anos depois, a descobrir o obscuro estampanço das luminárias.
Decidi jogar à defesa: visionários são os que, 30 anos depois, descobrimos que tinham razão. É, por isso, de elementar justiça saudar os visionários do 11 de Março. Se não fosse o que, então, passou por incompreendido assalto, expliquem-me o que é que hoje, a 11 de Março de 2010, o Estado teria para vender e dar gás ao PEC?
Aquela malta que se vê na foto acima, no Terreiro do Paço, sabia que estava a trabalhar para o futuro! Haja alguém que reconheça, retrospectivamente, a centelha de futuro (e de inominável liberalismo) que atravessou a mente dos nossos truculentos revolucionários de 75. O ministro Teixeira dos Santos, devoto e obrigado, antes de todos.

Este país, chique a valer, só está para dâmasos. E salcedes!

Eu tenho uma pistola. De agrafos, o que é que estava a pensar?! É pesada, a danada, tão pesada que não se deixa pegar direitinha, sem apoio. Ora isto vem a propósito do quê? Do PEC, do que é havia de ser… e não é porque vá desandar a agrafar a classe política em geral e os gestores públicos em particular. É porque, sem me chamar Martha Stewart ou Bree Van De Kamp, tenho um defeito terrível que, nas relações pessoais e na economia doméstica, é uma qualidade: quando olho para uma pessoa ou coisa, nunca considero só aquilo que ela é, mas tudo aquilo que ela pode ser — tive uma epifania, acho que, mal comparado, é um feitio de alquimista. Adiante. Nas outras situações é mau porque induz, pode induzir, em erros de avaliação. Graves. Todavia nestas duas situações é bom. Não podia ser melhor.
A parte humana é obviamente fácil de entender: quando se vê uma pessoa no esplendor do seu futuro potencial, basta, no presente, na relação com ela, ir a direito em direcção a esse futuro, prevendo as dificuldades, para  que a pessoa manifeste a sua capacidade no presente. E é uma felicidade.
Agora, a parte doméstica porque, nos dias que correm, convém gastar menos, no entanto, vivendo tão ou mais bem, ou mesmo, tendo uma vida melhor do que quando se gasta mais. É preciso olhar para uma moldura de loja dos trezentos e vê-la costume made para um quarto. Encontrar  entre bases de candeeiro de feira de velharias, a talha que se restaura e folheia a ouro. Lembrar de quem gosta de bolachas de manteiga e quem prefere compota. Saber o que comprar e onde e a quem. E o que fazer com aquilo que se compra para que se dê, como direi?, o milagre da multiplicação do vinho e do pão, mas sem a parte do milagre. Enfim, esquecer o que não interessa: que há hipermercados que vendem o tomate a mais de dois euros o quilo. A verdade é que poupando, se tem liberdade para as pequeninas extravagâncias e para alguma generosidade — só falo, obviamente, daqueles que têm a satisfação das necessidades básicas assegurada. Mais do que tempo, o que é necessário é organização. No fundo, é a teoria do porco. Em toda a sua extensão quando possível. Quando não, o mais que se conseguir. Olhe, a teoria do meio porco e não se fala mais nisso. Eu não compro febras, compro um porco. Não compro secretos, não compro lombo, não compro linguiças, nem banha. Nem presunto. Compro um porco. Não compro carne cheia de antibióticos, criada a partir de ração de farinhas duvidosas, carne que encolhe no tamanho e no peso quando se cozinha e sabe a qualquer coisa vagamente porca. Compro carne de um bicho meio selvagem que anda pelos montados a comer bolotas e o que deve, tem uma vida santa e uma morte limpa. Ai um porco é muito grande, onde é que eu ponho tanta carne?! Diz você. Compre a meias com a sua irmã. A treias com o seu irmão e pais. A seias com as suas lindas amigas. E o que é que isto tem que ver com a pistola? Tudo! Fazer coisas é bom. Seja para nós, seja para os que amamos. Para os que não sabemos amar, também. Faz-nos sentir competentes porque nos dá competências. E fazê-lo acompanhado, é diversão de programa de festas. Até educação para a frugalidade e/ou criatividade, sem seca. E para a justa medida quando a vaidade nos dá para a hipérbole. O corpo é tão importante como a cabeça e é uma alegria utilizá-lo – não me estou a referir a exercícios de yoga ou manobras de outra natureza, que, concedo, é tudo também muito bom. E nem sequer é preciso ter jeito: vontade e prática, bastam. Para corrigir os erros, usa-se a tal da cabeça. Volto para lhe contar tudo. Pronto, conto só um bocadinho. Sabe o que é eu fiz? Já forrei uma cabeceira de cama, um sofá, uma fartura de bancos de cozinha. Não foi hoje. Se parecem projectos dignos de uma aula de trabalhos manuais? Essa é boa… Garanto-lhe que parecem ter vindo do estofador — de um estofador que admite pequeninas imperfeições do seu aprendiz que as disfarça com muito afinco. Isto para ficarmos pelos agrafos. Se fosse falar de candeeiros, abria uma loja de iluminação. Bem, quase. Teria, vá, uma prateleira numa loja de iluminação. Comida? Só lhe digo, na sexta-feira, uma querida amiga faz anos e eu vou levar para o pai dela bolinhos de gema de ovo. Se saírem mal, uma garrafa de belo tinto.

Madalena

JV, MADALENA, Páscoa 2009

É alegre e optimista, corajosa e persistente, generosa e sensata. Gosta de ler e de tocar guitarra, de escrever e de desenhar. Devora quantidades desmedidas de chocolate e de arroz e detesta bananas. Tem a secretária e o quarto sempre arrumados. É uma barra nas notas e imbatível a nadar costas. Cuida de toda a gente – de mim, quando me sente cansada ou triste, das irmãs, a quem livra dos mais delirantes enredos, dos atrapalhados colegas nas vésperas dos testes, dos idosos do lar que visita às terças e a quem leva maçãs, bolachas, marmelada e tudo o mais que lhe ocorre furtar da despensa cá de casa.               

Quer ser médica e salvar vidas. Diz que vai para África. Também quer ser escritora e ter três filhas. E não duvida que um dia vai avistar uma baleia azul a nadar em pleno oceano.   

Às vezes zanga-se. Comigo, porque não a compreendo. Com as irmãs, porque abusam indecentemente dela. Com o cabelo, com as borbulhas, com as amigas e com o mundo em geral, porque sim. Então resmunga e brada aos céus, profere negras ameaças e fecha-se no quarto, a remoer. Disfarço como posso uma imensa vontade de rir e suspiro de alívio: afinal ela é normal. 

Nasceu faz hoje 15 anos. E mudou a minha vida para sempre.

Stairway to heaven

Começa como uma balada. Acaba em apocalíptico hard-rock. Primeiro romance, depois matança. Mas é uma grandessíssima canção de uns ingleses marados que davam pelo nome de Led Zeppelin. Robert Plant cantava com voz e cabelos, Jimmy Page desunhava-se no (talvez) mais mítico solo de guitarra da história do rock. À canção, tocaram-na de todas as maneiras e feitios. Ninguém melhor do que os autores. Mas gosto muito do “tribute” irónico, desconstrutivo, desarmante, que Frank Zappa lhe dedicou. De Zeppelin a Zappa, estamos a falar de gente séria, com escadinha para o paraíso.

Dois livros, duas capas

Lá vem, outra vez, outra vez! a declaração de interesses… A editora e eu, eu e a editora, blá, blá, blá… Mas o que é que querem, não resisto a mostrar capas e livros novos.
Já tinha dito que a Guerra e Paz publicou até hoje 3 livros de Agustina? Já e repito: As Meninas com Paula Rego, Fama e Segredo da História de Portugal, o autobiográfico Livro de Agustina.
Já tinha dito que, muito em breve, a Guerra e Paz terá também 3 livros publicados de Jorge de Sena? Não? Digo agora: nos próximos dois meses, à Correspondência de Sena com Sophia, agora reimpresso com 9 cartas inéditas, a Guerra e Paz vai juntar dois novos livros, Dedicácias, contendo os mais violentos poemas de escárnio e maldizer do poeta, e a Correspondência que trocou com Raul Leal.
Mas hoje, as capas e os novos livros que mostro são os de nova aposta: a publicação sistemática de novos romancistas portugueses.
Todos os dias, a toda hora penso que esta vida não pode ser a minha vida” lê-se no romance de estreia de Cristina Boavida, a que ela chamou “Só No Escuro Podes Ver as Estrelas”. A editora deu-lhe esta linda capa:

 

“- Ora até que enfim – silvou baixinho Damião S. Sampaio, ajeitando melhor os fundilhos à cadeira de trabalho.” foi a forma que António Eça de Queiroz encontrou para começar o seu primeiríssimo romance, titulado com toda a propriedade “O Romance Ilegal do Sr. Rodolfo” que a editora revestiu com capa celestial:

 

 Primeiros romances. Estou firmemente convencido que a Cristina e o António vão escrever muitos mais.

Hoje à noite, em Milão

Faz hoje 168 anos, ia uma louca e vertiginosa azáfama em muitas casas milanesas. Senhoras armavam cabelos, criadas passavam-lhes os longos vestidos, lustravam-se os generosos centímetros de doce seio que brilhariam depois no insensato decote. À noite, “ah, logo à noite”, estrear-se-ia no Scala a terceira ópera de… de…, “ai como é que ele se chama..?”, “Olha, Verdi, sei que é Verdi!”.
Livremente inspirada nos incidentes bíblicos, a cuja fantasia presto devoção, Nabucco, terceira ópera de Verdi, segue os sofrimentos e peregrinação do povo judeu, desde o ataque até à escravização e exílio. Tudo sob a feroz e férrea acção de Nabucodonosor (“Não sou rei! Sou Deus!”).
A noite foi gloriosa e o público pediu encore do “Immenso Jehovah”. Mas colado às paredes, caminhando pelas vielas mais escusas, um compositor alemão, Otto Nicolai, que recusara o libreto, a ele primeiro oferecido, ruminava impropérios: “Como é que podem gostar disto, o homem compõe como um louco, nem profissional é. Que história, só de raiva, sangue e matança!
E era e começava assim:

E era e acabava assim:

In Memoriam — Mark Linkous


Mais um grande talento da música que nos deixa prematuramente. Partiu porque quis e, provavelmente, porque percebeu de vez que o “It´s a Wonderful Life” que (en)cantava só existia no mundo de perfeitas harmonias que a sua voz e guitarra criaram para os Sparklehorse. Deixa-nos com esse legado, um dos mais brilhantes álbuns da década agora finda, tantas vezes ouvido no silêncio da noite profunda e dos poucos que, sempre que nele pegava, acabava invariavelmente por ouvir não uma, mas duas e três vezes seguidas, e sempre como se fosse a primeira.

 

É delito e agradecemos

O nosso blog é como aquelas criancinhas de que as mães e as amigas das mães dizem “ai tão perfeitinho”.  Foi o Francisco que o fez e muito bem feito. Mas o Francisco avisou logo que ainda faltava uma coisa — os links. E faltam. Ainda.
Agora, por acaso, disseram-me ao ouvido que o Delito de Opinião, um blog a sério e muito bom, gostou duma roupinha lavada com que nos andámos a passear no fim de semana e fez-nos link aqui. E nós gostámos, gostamos e agradecemos.


Manuel Fonseca, conte tudo tudinho!

De Eugénia, dita Rainha da Sardenha, Serva das Servas de Deus, da Bondade e Modéstia, ao Caríssimo Irmão em Cristo, e Bloga, Pedro Marta Santos, Ilustre Rei de todos os Cinéfilos, habitantes das terras brumosas do Reino da Cinefilândia, Servo dos Servos do Argumento que, oferecendo como veículo as palavras de Sua pena, cede a Excelsa voz ao silêncio das imaginações.
Mostrastes, e indubitavelmente o vimos, que sois bom Rei das terras da Cinefilândia pois incontáveis vezes defendestes Vossos súbditos do mal contra eles arremedado — permiti que, à laia de menor exemplo, a Vossa humildade contemple o generoso bom serviço que prestastes a Dom M. Noite Shyamalan, cavaleiro -, e por Vossa corajosa defesa, por Vosso reconhecimento da grandeza de outrém, conquistastes a eterna dívida deles e dos que os seguem que, assim, Vos são e serão leais e aos Vossos pés depositam a espada dos serviços que heis-de, por merecimento, haver.  Destes, intrépido, valoroso e sem proveito próprio, o que para Vós colhestes em sabedoria após fotogramada reflexão e por isso deve a Sardenha responder sem delongas ao que a Vossa modéstia suplica, usando de desnecessária reverência no tom ao dirigir-se-nos, a nós que somos em Majestade iguais a Vós, ainda que em virtude não mais que o último dos Vossos discípulos. Todavia, antes, e porque o primeiro magistério da Sardenha obriga à verdade que só nos mitos infantis se revela, cabe-nos confirmar a pura linhagem, idoneidade, toda e cada uma das proezas, e o que por pudor ocultastes: o devotado fervor amoroso e conjugal consumado na cabana de ouro, na praia, daquele que entre os Grandes é Máximo, o Fantasma. Atendo, então, ao que podendo ordenar, pedis.

Esta seria a altura ideal para falar da minha Murasaki Shikibu, ou do meu Churchill, do Jung, mesmo da Sei Shonagon, ou de tantos tão superiores outros, vá, da Jo March, não fora, apesar da genuína admiração, o facto de, infelizmente, não serem os meus mais internos heróis.
O meu grande herói é D. Vito Corleone. Gosto de tudo dele e não tenho, ó desgosto, umazinha só das qualidades que nele superabundam e a mim tanto faltam. Gosto-o criança muda e subestimada, gosto-o fechado no quarto, de quarentena, a cantar para ter tudo o que já tinha perdido, gosto-o diligente de mercearia e ali babá de levar para a mulher aconchegar a casa, um tapete persa grande demais. Gosto-o por tão familiar. E por ser salomónico, proporcional e sem excessos. Mas mais que tudo, gosto que as circunstâncias que o determinam, determinem a excelência porque não se pode determinar aquilo que não se é.

O meu vilão parece divertido. Mas é um monstro. E é perigoso: é infantil, egoísta, indisciplinado, insuportável. Sabotador. Exaspera-me. Cansa-me. É pior do que Penélope à noite: desfaz, tenta desfazer, tudo. É o Calvin. O que me vale é que o meu Hobbes não é só o meu lindo Cão. É a, inaceitável para século XXI, Anita.

Bread and Roses

As we come marching, marching in the beauty of the day,

A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,

Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,

For the people hear us singing: “Bread and roses! Bread and roses!”

As we come marching, marching, we battle too for men,

For they are women’s children, and we mother them again.

Our lives shall not be sweated from birth until life closes;

Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses!

As we come marching, marching, unnumbered women dead

Go crying through our singing their ancient cry for bread.

Small art and love and beauty their drudging spirits knew.

Yes, it is bread we fight for — but we fight for roses, too!

As we come marching, marching, we bring the greater days.

The rising of the women means the rising of the race.

No more the drudge and idler — ten that toil where one reposes,

But a sharing of life’s glories: Bread and roses! Bread and roses!

James Oppenheim, 1911

 

Bread and Roses. Melhores salários e condições mais dignas de trabalho e de vida (redução da jornada diária e protecção na maternidade). Era o que exigiam estas mulheres, operárias têxteis. Na manifestação de 8 de Março de 1857, em Nova Iorque, que juntou 15.000. Na Lawrence Strike, que durou entre Janeiro e Março de 1912, no Massachussetts, e que envolveu cerca de 20.000 trabalhadores, na sua maioria mulheres imigrantes.

O Dia Internacional da Mulher foi instituído em 1910, na II Conferência Internacional de Mulheres Trabalhadoras, em Copenhaga. Há 100 anos. Surgiu como jornada de sensibilização e reflexão, de pressão e luta. Rapidamente evoluiu do plano estritamente laboral para o da igualdade e dignidade da mulher em todos os aspectos da vida. E é assim que deve ser e se deve manter. Não na versão delicodoce e quase sãovalentinizada do “feliz dia da mulher!”, bem-intencionada, eu sei, mas que me leva ao desespero…    

Porque, nesta nossa parte do mundo, por todo esse mundo fora, o pão dos salários, do poder, das responsabilidades familiares, das tarefas da vida corrente não é ainda partilhado de forma justa e solidária. Porque a vida das mulheres e meninas, vítimas de discriminação, violência, exploração, sujeição e depreciação sob as mais diversas, brutais e inaceitáveis formas está longe, muito longe de ser um mar de rosas.      

 

Passar a Outro e Não ao Mesmo

Kathryn Bigelow a caminho de casa do produtor Manuel Fonseca

Os vestidos dos Óscares distraem-me sempre: está na melhor hora de conhecer, na hora que ela entenda como a melhor, os heróis e vilãs de Sua Majestade Eugénia — ou serão heroínas e vilões?

Talvez da Sardenha venha a voz: “Caminha devagar, porque caminhas sobre os meus sonhos”.

Para ficar na sala mesmo até ao fim

Mesmo que não pertença ao restrito círculo de cinéfilos snobs que não arredam pé de uma sala de cinema antes de passar no écran a última linha de créditos do genérico final, há uma razão muito forte para que fique mesmo até ao fim da projecção em Shutter Island, o novo filme de Martin Scorsese. Lamento informar que não será ainda a tão aguardada explicação de Marty sobre as misteriosas razões que o levam a insistir em Leonardo Di Caprio para todo o tipo de papéis. It´s all about a song. Sim, uma canção que o fará dar por muito bem empregue esses seis minutos suplementares que permanecerá na sala. Uma canção que, só por si, justificaria um Oscar para o filme, não fosse este não ter estreado a tempo de concorrer aos prémios deste ano, e não lhe faltasse a ela, à canção, o requisito da originalidade necessário para receber a estatueta. Na verdade, é apenas um velho clássico de Dinah Washington (“This Bitter Earth”) adaptado a uma composição de Max Richter (“On The Nature of Daylight”). Se não quiserem levar com o Di Caprio durante duas horas e meia (duas horas e meia, apesar de tudo, muito bem passadas, como quase sempre acontece com Scorsese) só para terem o prazer de a ouvir, façam favor de a ouvir já aqui.

 

folhetim 8– Interlúdio e Fuga

– Merda!
Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.
– Senhor?
Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco e pouco foi estabilizando.
– A vossa rede está uma desgraça. Quem vos viu e quem vos vê, pobres, pobres europeus que eram os senhores do mundo e agora nem conseguem fazer uma teleconferência em condições – o Senhor começou a frase a rir e acabou-a a tossir. Riso e tosse quase convulsos, no mesmo formidável estremecimento.
Catarina olhou pela janela do seu apartamento na Plaka. Da rua subia-lhe o rumor festivo de centenas de passos e vozes. Eram os turistas chineses a subirem para a Acrópole. Em menos de uma hora ia começar o espectáculo quotidiano do Ligh & Sound The Ancient Hellas. Tal como todos os habitantes do bairro, também ela teria que vestir a toga e ir à varanda deitar fogo de artifício. Era disso que viviam.
– Estamos muito descontentes com o curso das coisas, meu anjo. – A ironia de S. angustiou Catarina – demos-lhe um homem a guardar, só um, e perdeu-o? Onde pára o seu valido com nome de santo?
– Ficou à porta de uma igreja em Nova Iorque, Senhor. – Qual? – The Little Church Around the Corner, a Igreja da Transfiguração, na Rua 29 – Catarina sentiu um abismo entre a grandiloquência do nome oficial e a prosaica localização.
– Logo essa… O homem está mesmo perdido. Só um descrente é que entra nas igrejas à procura de respostas. Quem tem o hábito de lá ir já sabe o que espera.
– Não era o Sandeep que estava a tomar conta dele? – ousou perguntar Catarina, sabendo que são insondáveis os desígnios de quem pode.
Dois sulcos riscaram a testa de S.
– Era. Mas tive que o chamar. – Isto foi dito sem levantar nem gelar a voz, afirmado como quem descreve.
Catarina recebeu isto como a verdadeira forma do poder.
O Senhor começou a crescer, a erguer o seu volume colossal. Ocupava agora toda a imagem, enquanto a voz afundava o tom, martelando cada sílaba. O rosto avermelhava-se mas os olhos vagueavam indiferentes à cólera que os sacudia.
– Tive pena dele, vi-o desesperado, a morte deteve-se na sua vida com impiedade, foi a mulher que agonizou com um sofrimento minucioso; foi o desaparecimento súbito dos pais que afinal não eram os verdadeiros pais, o que lhe impediu de recordá-los amorosamente, retribuindo o imenso amor que lhe deram em vida; foi o desamparo dos filhos de quem ele ouvia o choro sufocado todas as noites, numa tristeza que lhe afugentava o sono eo deixava prostrado de amargura. Tudo isto fez com que a compaixão voltasse a tocar-me e decidi intervir. Sim, resolvi agir. E qual foi o resultado?
Catarina teve a perfeita dimensão da sua fragilidade diante da fúria que vinha ao seu encontro. Naquele instante viu como tudo podia desaparecer num clic. E recomeçar logo a seguir num estalar de dedos, sem sombra de passado. E percebeu que se uma pergunta nunca encontra resposta, é porque deve estar mal feita.
– Esse Francisco Xavier abandonou os filhos, que é a maior das crueldades; ficou cego ao que lhe era oferecido, desdenhou ou ignorou os sinais que lhe foram postos à frente. Para quê? Para correr como uma galinha tonta de enigma em enigma à volta do mundo como uma personagem dos livros daquele locutor de TV, como é que ele se chama? – Catarina lembrou-se mas não disse e S. suspirou enfadado, esvaziando a sua ira. – Tanto acidente para encontrar o nome. Vale a pena juntar mais sofrimento ao sofrimento por um nome? E isto o vosso livre arbítrio?
Houve um súbito silêncio. No ar só os alegres ditongos chineses que se exclamavam da rua. O senhor permaneceu imóvel e Catarina também não se mexeu, mas receou que a transmissão tivesse bloqueado.  S. acabou por fazer um gesto de abandono com a mão.
– O homem já começou a ouvir coisas dentro de quadros. Ainda não descobrimos os limites da nossa paciência, mas não é tolerável que um episódio tão insignificante possa ficar fora de controlo. Vamos acabar com esta deambulação insensata. Nem Boston, nem Atenas. Está na hora, vá buscá-lo e traga-o de novo a casa. À casa de origem. Lisboa.
Catarina endireitou-se na ponta da cadeira, ainda sem coragem para desvanecer a tensão nos músculos.
Não nos deixe ficar mal, Catarina. – disse o Senhor com alarmante  suavidade – Se o seu Francisco Xavier continuar tão aflito para se identificar consigo próprio teremos sempre o recurso de lhe marcar um encontro com Deus. Quando é a pedido não há remorsos.
Um vórtice negro. Desligou.


O telemóvel tocou e veio uma repentina bátega de chuva. Na esquina da 29 com a Madison Francisco viu o nome no visor e lembrou-se da frase: “Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”.
– Não posso viver sem ti. Amo-te. Vou aí buscar-te.

Heróis e Vilãs, ou Quando Eu Era Pequeníssimo

Cheguei tarde mas apareci (sorry, Vasco).

O meu herói, o meu único herói, é o Fantasma, filho de Lee Falk, há poucos dias 74 anos, celebrados num 17 de Fevereiro.

Kit Walker, o Fantasma que conheci há mais de três décadas, era o vigésimo primeiro de uma lista de justiceiros iniciada em 1536, quando Christopher Walker, marinheiro de Portsmouth, antigo grumete da nau Santa Maria, delfim de Cristovão Colombo, foi morto por um pirata da Irmandade dos Singh numa caravela naufragada algures no Índico, ao largo da costa do reino de Bengalla. Christopher Jr, único sobrevivente do naufrágio, é salvo por uma tribo de pigmeus, os Bandar, escravizados há séculos pelos Wasaka, adoradores de Uzuki, o Deus Demónio.

Christopher encontra os restos mortais do assassino do seu pai e, levantando o crânio do facínora, jura dedicar a sua vida “à destruição da pirataria, da cobiça, da crueldade e da injustiça em todas as suas formas. Os meus filhos e os filhos deles seguir-me-ão.”

Depois de resgatar os Bandar do jugo dos Wasaka, Christopher inspira-se nos símbolos de Uzuki para criar um vingador mascarado, defensor de fracos e oprimidos, eterno habitante de uma gruta em forma de caveira, de rosto desconhecido e, por isso, mais temível, com fato púrpura a surgir das profundezas da selva para petrificar os adversários, cujo rosto marca para sempre através do anel, representando o crânio da morte, que usa na mão direita, um anel feito dos pregos que fixaram Jesus na cruz, outrora propriedade de Nero, o imperador pirómano.

Sem recurso a poderes mágicos, poções divinas, insondáveis super-forças ou destinos providenciais, Kit, o vigésimo primeiro “Fantasma que Caminha”, faz uso apenas dos seus talentos naturais, de um espírito inquebrantável, transmitido de pais a filhos durante quatro séculos e das ajudas de Guran, chefe dos Bandar, do lobo Devil e do cavalo Hero.

Depois de ser criado na Caverna da Caveira pela mãe, antiga dupla de Rita Hayworth, Kit continua a sua educação nos EUA, onde conhece Diana Palmer — ela tem 12 anos, eu 9, e é paixão à primeira vista.  Separam-se até aos 18 anos de ambos, quando um Natal em Clarksville os reúne para sempre (Kit é um bocado lento na formalização das intenções, já que  apenas casará com Diana em 1978 — Mandrake e alguns ministros, estranhamente impolutos, comparecem ao copo de água).

De face nunca revelada aos leitores — só os inimigos lhe conhecem o rosto, pouco antes de darem de finados -, o fantasma era tudo o que eu queria ser: forte, justo e, claro, vencedor de corações (16 homens tentaram casar com Diana, mas ela desprezou-os a todos). No traço mítico, muito Stevenson, de Ray Moore, ou na limpidez de Wilson McCoy (entretanto, já históricos como Carmine Infantino ou revelações como Dave Gibbons se enfeitiçaram pelo mascarado), o Fantasma que Caminha foi o meu fato de Carnaval na festa do centro de convívio da única avenida, finda na estação de comboios, de uma terrinha de vento fresco, encostada ao mar, chamada Valadares, onde vivi durante dois anos.

Fiquei em terceiro lugar no concurso da festa, mas nem concorrentes ou júri percebiam porque é que estava enfiado num fato púrpura e de anel de caveira no dedo (pode marcar um homem, eu sei, mas vou recuperando): ninguém sabia quem era o Fantasma. Foi em 1977.

Três anos antes, a um par de quilómetros dali, ainda junto a águas salgadas, numa terrinha ainda mais pequena chamada Lavadores, no tempo em que o meu pai regressava de Londres com o primeiro comboio eléctrico que vi na vida (acho que sempre gostei de comboios por causa desse), deitei-me no beliche de cima do quarto que partilhava com a minha irmã (ela aconchegava-se aos peluches no beliche de baixo), a minha mãe apagou a luz da cozinha, deixando apenas uma luz de presença junto à sala, e e não consegui dormir por causa desta:

A Bruxa Maléfica, circa 1959

Havia um cabide no hall, de sombras recortadas pela luz precária junto à sala. O cabide, olhos fechados, olhos abertos, era igual à Bruxa dos Cornos (sabia eu lá que outras razões nos podiam levar a todos, em namoros certos e difusos, a transportar as mesmas razões em vergonha ou ignorância…). Corrijo: o cabide não era igual à Bruxa Maléfica de “A Bela Adormecida” de Marc Davis (o animador que criará depois essa meia-irmã dickensiana da fada má, a Cruella De Vil de “os 101 Dálmatas), de Walt Disney, Perrault e, em certa medida, de Tchaikovsky e dos irmãos Grimm. Aquele cabide ERA a Bruxa Maléfica.

Com a cabeça debaixo da almofada,o Cabide ganhava as formas e as chamas da Bruxa, convocava os corvos negros, abria os braços para tudo cobrir de escuridão e aproximava-se de mim, passo a passo com os cascos de Lúcifer, os olhos amarelos a brilhar no manto preto, pronta a devorar-me braços, língua e crânio (nessa altura, ainda não tinha ouvido falar daquele senhor austríaco que gostava de histéricas e epilépticas).

A roda roda rodando

Umas horas antes, tinha-a visto no Cinema Vale Formoso — ficava junto à Constituição, na capital dos homens Bês -  a amaldiçoar o baptizado da princesa Aurora, lançando-a, feitiço abaixo, escadas acima, pela torre do Castelo sem Nome onde, 16 anos depois, Aurora irá tocar na roda que roda, picando a mão e sangrando — primeiro sangue, primeiro sexo — para adormecer o reino em trevas de séculos, à espera do beijo de amor e do amor de beijo que a redima.

 

Tirava eu a cabeça do travesseiro e o cabide lá estava, imóvel mas prestes a atacar, os ramos de uma árvore com olhos grandes para te comer, avozinha.

Tinha seis anos, e nunca senti, antes ou depois, tanto medo como no beliche da casa pequena, luz trémula, Lavadores, a norte instante do sol nascente.


Para começar pelo começo, a preto muito preto

Em 1899, Joseph Conrad, estimado marido, arrancava com The heart of darkness, ao seu jeito de pedra na água, o jeito dele, a traçar o caminho mais curto entre a superfície clara e o fundo escuro: The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide. Eu não era nascida. Porém, diante disto, pensei logo em nascer. Não pude, no entanto, por absoluta falta de ainda desinventados pai e mãe.

Em 1951, Graham Greene, estimado marido, arrancava com The end of the affair, ao seu jeito exacto, o jeito dele, de osso limpo: A story has no beginning or end; arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead. Eu não era nascida. Pensei, por ser absolutamente impossível impensá-lo: gostava tanto de ir comprar a primeira edição.. Mas qual o quê?! Tive de conformar-me ao estado de incriada. Que nervos!

Em 1944, Dylan Thomas, marido apenas de Caitlin McNamara — tão mau marido, tão muito amado, tão bom amor mal amado dos dois que ela terá dito no hospital, quando ele já moribundo: Is the bloody man dead yet? -, começou a escrever Under Milk Wood. Entregou a versão final, 9 anos depois, à BBC que, em 1954, e pela voz de Richard Burton, me fez pensar seriamente em nascer, desse por onde desse!  Não consegui: apesar do meu pai já ter idade para ser pai, a verdade é que a minha mãe tinha, e teria ainda por bastante tempo, idade para ser mãe só de bonecas. Não fez mal. O YouTube guardou para mim. Passa-se tudo nos primeiros 30 segundos. Assim é mais fácil acompanhar: To begin at the beginning: It is spring, moonless night in the small town, starless and bible-black, the cobblestreets silent and the hunched, courters’-and-rabbits’ wood limping invisible down to the sloeblack, slow, black, crowblack, fishingboatbobbing sea.