Madalena

JV, MADALENA, Páscoa 2009

É alegre e optimista, corajosa e persistente, generosa e sensata. Gosta de ler e de tocar guitarra, de escrever e de desenhar. Devora quantidades desmedidas de chocolate e de arroz e detesta bananas. Tem a secretária e o quarto sempre arrumados. É uma barra nas notas e imbatível a nadar costas. Cuida de toda a gente – de mim, quando me sente cansada ou triste, das irmãs, a quem livra dos mais delirantes enredos, dos atrapalhados colegas nas vésperas dos testes, dos idosos do lar que visita às terças e a quem leva maçãs, bolachas, marmelada e tudo o mais que lhe ocorre furtar da despensa cá de casa.               

Quer ser médica e salvar vidas. Diz que vai para África. Também quer ser escritora e ter três filhas. E não duvida que um dia vai avistar uma baleia azul a nadar em pleno oceano.   

Às vezes zanga-se. Comigo, porque não a compreendo. Com as irmãs, porque abusam indecentemente dela. Com o cabelo, com as borbulhas, com as amigas e com o mundo em geral, porque sim. Então resmunga e brada aos céus, profere negras ameaças e fecha-se no quarto, a remoer. Disfarço como posso uma imensa vontade de rir e suspiro de alívio: afinal ela é normal. 

Nasceu faz hoje 15 anos. E mudou a minha vida para sempre.

Stairway to heaven

Começa como uma balada. Acaba em apocalíptico hard-rock. Primeiro romance, depois matança. Mas é uma grandessíssima canção de uns ingleses marados que davam pelo nome de Led Zeppelin. Robert Plant cantava com voz e cabelos, Jimmy Page desunhava-se no (talvez) mais mítico solo de guitarra da história do rock. À canção, tocaram-na de todas as maneiras e feitios. Ninguém melhor do que os autores. Mas gosto muito do “tribute” irónico, desconstrutivo, desarmante, que Frank Zappa lhe dedicou. De Zeppelin a Zappa, estamos a falar de gente séria, com escadinha para o paraíso.

Dois livros, duas capas

Lá vem, outra vez, outra vez! a declaração de interesses… A editora e eu, eu e a editora, blá, blá, blá… Mas o que é que querem, não resisto a mostrar capas e livros novos.
Já tinha dito que a Guerra e Paz publicou até hoje 3 livros de Agustina? Já e repito: As Meninas com Paula Rego, Fama e Segredo da História de Portugal, o autobiográfico Livro de Agustina.
Já tinha dito que, muito em breve, a Guerra e Paz terá também 3 livros publicados de Jorge de Sena? Não? Digo agora: nos próximos dois meses, à Correspondência de Sena com Sophia, agora reimpresso com 9 cartas inéditas, a Guerra e Paz vai juntar dois novos livros, Dedicácias, contendo os mais violentos poemas de escárnio e maldizer do poeta, e a Correspondência que trocou com Raul Leal.
Mas hoje, as capas e os novos livros que mostro são os de nova aposta: a publicação sistemática de novos romancistas portugueses.
Todos os dias, a toda hora penso que esta vida não pode ser a minha vida” lê-se no romance de estreia de Cristina Boavida, a que ela chamou “Só No Escuro Podes Ver as Estrelas”. A editora deu-lhe esta linda capa:

 

“- Ora até que enfim – silvou baixinho Damião S. Sampaio, ajeitando melhor os fundilhos à cadeira de trabalho.” foi a forma que António Eça de Queiroz encontrou para começar o seu primeiríssimo romance, titulado com toda a propriedade “O Romance Ilegal do Sr. Rodolfo” que a editora revestiu com capa celestial:

 

 Primeiros romances. Estou firmemente convencido que a Cristina e o António vão escrever muitos mais.

Hoje à noite, em Milão

Faz hoje 168 anos, ia uma louca e vertiginosa azáfama em muitas casas milanesas. Senhoras armavam cabelos, criadas passavam-lhes os longos vestidos, lustravam-se os generosos centímetros de doce seio que brilhariam depois no insensato decote. À noite, “ah, logo à noite”, estrear-se-ia no Scala a terceira ópera de… de…, “ai como é que ele se chama..?”, “Olha, Verdi, sei que é Verdi!”.
Livremente inspirada nos incidentes bíblicos, a cuja fantasia presto devoção, Nabucco, terceira ópera de Verdi, segue os sofrimentos e peregrinação do povo judeu, desde o ataque até à escravização e exílio. Tudo sob a feroz e férrea acção de Nabucodonosor (“Não sou rei! Sou Deus!”).
A noite foi gloriosa e o público pediu encore do “Immenso Jehovah”. Mas colado às paredes, caminhando pelas vielas mais escusas, um compositor alemão, Otto Nicolai, que recusara o libreto, a ele primeiro oferecido, ruminava impropérios: “Como é que podem gostar disto, o homem compõe como um louco, nem profissional é. Que história, só de raiva, sangue e matança!
E era e começava assim:

E era e acabava assim:

In Memoriam — Mark Linkous


Mais um grande talento da música que nos deixa prematuramente. Partiu porque quis e, provavelmente, porque percebeu de vez que o “It´s a Wonderful Life” que (en)cantava só existia no mundo de perfeitas harmonias que a sua voz e guitarra criaram para os Sparklehorse. Deixa-nos com esse legado, um dos mais brilhantes álbuns da década agora finda, tantas vezes ouvido no silêncio da noite profunda e dos poucos que, sempre que nele pegava, acabava invariavelmente por ouvir não uma, mas duas e três vezes seguidas, e sempre como se fosse a primeira.

 

É delito e agradecemos

O nosso blog é como aquelas criancinhas de que as mães e as amigas das mães dizem “ai tão perfeitinho”.  Foi o Francisco que o fez e muito bem feito. Mas o Francisco avisou logo que ainda faltava uma coisa — os links. E faltam. Ainda.
Agora, por acaso, disseram-me ao ouvido que o Delito de Opinião, um blog a sério e muito bom, gostou duma roupinha lavada com que nos andámos a passear no fim de semana e fez-nos link aqui. E nós gostámos, gostamos e agradecemos.


Manuel Fonseca, conte tudo tudinho!

De Eugénia, dita Rainha da Sardenha, Serva das Servas de Deus, da Bondade e Modéstia, ao Caríssimo Irmão em Cristo, e Bloga, Pedro Marta Santos, Ilustre Rei de todos os Cinéfilos, habitantes das terras brumosas do Reino da Cinefilândia, Servo dos Servos do Argumento que, oferecendo como veículo as palavras de Sua pena, cede a Excelsa voz ao silêncio das imaginações.
Mostrastes, e indubitavelmente o vimos, que sois bom Rei das terras da Cinefilândia pois incontáveis vezes defendestes Vossos súbditos do mal contra eles arremedado — permiti que, à laia de menor exemplo, a Vossa humildade contemple o generoso bom serviço que prestastes a Dom M. Noite Shyamalan, cavaleiro -, e por Vossa corajosa defesa, por Vosso reconhecimento da grandeza de outrém, conquistastes a eterna dívida deles e dos que os seguem que, assim, Vos são e serão leais e aos Vossos pés depositam a espada dos serviços que heis-de, por merecimento, haver.  Destes, intrépido, valoroso e sem proveito próprio, o que para Vós colhestes em sabedoria após fotogramada reflexão e por isso deve a Sardenha responder sem delongas ao que a Vossa modéstia suplica, usando de desnecessária reverência no tom ao dirigir-se-nos, a nós que somos em Majestade iguais a Vós, ainda que em virtude não mais que o último dos Vossos discípulos. Todavia, antes, e porque o primeiro magistério da Sardenha obriga à verdade que só nos mitos infantis se revela, cabe-nos confirmar a pura linhagem, idoneidade, toda e cada uma das proezas, e o que por pudor ocultastes: o devotado fervor amoroso e conjugal consumado na cabana de ouro, na praia, daquele que entre os Grandes é Máximo, o Fantasma. Atendo, então, ao que podendo ordenar, pedis.

Esta seria a altura ideal para falar da minha Murasaki Shikibu, ou do meu Churchill, do Jung, mesmo da Sei Shonagon, ou de tantos tão superiores outros, vá, da Jo March, não fora, apesar da genuína admiração, o facto de, infelizmente, não serem os meus mais internos heróis.
O meu grande herói é D. Vito Corleone. Gosto de tudo dele e não tenho, ó desgosto, umazinha só das qualidades que nele superabundam e a mim tanto faltam. Gosto-o criança muda e subestimada, gosto-o fechado no quarto, de quarentena, a cantar para ter tudo o que já tinha perdido, gosto-o diligente de mercearia e ali babá de levar para a mulher aconchegar a casa, um tapete persa grande demais. Gosto-o por tão familiar. E por ser salomónico, proporcional e sem excessos. Mas mais que tudo, gosto que as circunstâncias que o determinam, determinem a excelência porque não se pode determinar aquilo que não se é.

O meu vilão parece divertido. Mas é um monstro. E é perigoso: é infantil, egoísta, indisciplinado, insuportável. Sabotador. Exaspera-me. Cansa-me. É pior do que Penélope à noite: desfaz, tenta desfazer, tudo. É o Calvin. O que me vale é que o meu Hobbes não é só o meu lindo Cão. É a, inaceitável para século XXI, Anita.

Bread and Roses

As we come marching, marching in the beauty of the day,

A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,

Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,

For the people hear us singing: “Bread and roses! Bread and roses!”

As we come marching, marching, we battle too for men,

For they are women’s children, and we mother them again.

Our lives shall not be sweated from birth until life closes;

Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses!

As we come marching, marching, unnumbered women dead

Go crying through our singing their ancient cry for bread.

Small art and love and beauty their drudging spirits knew.

Yes, it is bread we fight for — but we fight for roses, too!

As we come marching, marching, we bring the greater days.

The rising of the women means the rising of the race.

No more the drudge and idler — ten that toil where one reposes,

But a sharing of life’s glories: Bread and roses! Bread and roses!

James Oppenheim, 1911

 

Bread and Roses. Melhores salários e condições mais dignas de trabalho e de vida (redução da jornada diária e protecção na maternidade). Era o que exigiam estas mulheres, operárias têxteis. Na manifestação de 8 de Março de 1857, em Nova Iorque, que juntou 15.000. Na Lawrence Strike, que durou entre Janeiro e Março de 1912, no Massachussetts, e que envolveu cerca de 20.000 trabalhadores, na sua maioria mulheres imigrantes.

O Dia Internacional da Mulher foi instituído em 1910, na II Conferência Internacional de Mulheres Trabalhadoras, em Copenhaga. Há 100 anos. Surgiu como jornada de sensibilização e reflexão, de pressão e luta. Rapidamente evoluiu do plano estritamente laboral para o da igualdade e dignidade da mulher em todos os aspectos da vida. E é assim que deve ser e se deve manter. Não na versão delicodoce e quase sãovalentinizada do “feliz dia da mulher!”, bem-intencionada, eu sei, mas que me leva ao desespero…    

Porque, nesta nossa parte do mundo, por todo esse mundo fora, o pão dos salários, do poder, das responsabilidades familiares, das tarefas da vida corrente não é ainda partilhado de forma justa e solidária. Porque a vida das mulheres e meninas, vítimas de discriminação, violência, exploração, sujeição e depreciação sob as mais diversas, brutais e inaceitáveis formas está longe, muito longe de ser um mar de rosas.      

 

Passar a Outro e Não ao Mesmo

Kathryn Bigelow a caminho de casa do produtor Manuel Fonseca

Os vestidos dos Óscares distraem-me sempre: está na melhor hora de conhecer, na hora que ela entenda como a melhor, os heróis e vilãs de Sua Majestade Eugénia — ou serão heroínas e vilões?

Talvez da Sardenha venha a voz: “Caminha devagar, porque caminhas sobre os meus sonhos”.

Para ficar na sala mesmo até ao fim

Mesmo que não pertença ao restrito círculo de cinéfilos snobs que não arredam pé de uma sala de cinema antes de passar no écran a última linha de créditos do genérico final, há uma razão muito forte para que fique mesmo até ao fim da projecção em Shutter Island, o novo filme de Martin Scorsese. Lamento informar que não será ainda a tão aguardada explicação de Marty sobre as misteriosas razões que o levam a insistir em Leonardo Di Caprio para todo o tipo de papéis. It´s all about a song. Sim, uma canção que o fará dar por muito bem empregue esses seis minutos suplementares que permanecerá na sala. Uma canção que, só por si, justificaria um Oscar para o filme, não fosse este não ter estreado a tempo de concorrer aos prémios deste ano, e não lhe faltasse a ela, à canção, o requisito da originalidade necessário para receber a estatueta. Na verdade, é apenas um velho clássico de Dinah Washington (“This Bitter Earth”) adaptado a uma composição de Max Richter (“On The Nature of Daylight”). Se não quiserem levar com o Di Caprio durante duas horas e meia (duas horas e meia, apesar de tudo, muito bem passadas, como quase sempre acontece com Scorsese) só para terem o prazer de a ouvir, façam favor de a ouvir já aqui.

 

folhetim 8– Interlúdio e Fuga

– Merda!
Primeiro foi a voz. A parede crepitava num bzzz estaladiço e de repente acendeu-se nela a imagem de um homem sentado, um corpo enorme. Tinha o olhar disperso dos cegos mas intimidava, a sua opulenta figura.
– Senhor?
Disse Catarina hesitante e reverente. A transmissão oscilava, fustigada pela chuva de drops. A pouco e pouco foi estabilizando.
– A vossa rede está uma desgraça. Quem vos viu e quem vos vê, pobres, pobres europeus que eram os senhores do mundo e agora nem conseguem fazer uma teleconferência em condições – o Senhor começou a frase a rir e acabou-a a tossir. Riso e tosse quase convulsos, no mesmo formidável estremecimento.
Catarina olhou pela janela do seu apartamento na Plaka. Da rua subia-lhe o rumor festivo de centenas de passos e vozes. Eram os turistas chineses a subirem para a Acrópole. Em menos de uma hora ia começar o espectáculo quotidiano do Ligh & Sound The Ancient Hellas. Tal como todos os habitantes do bairro, também ela teria que vestir a toga e ir à varanda deitar fogo de artifício. Era disso que viviam.
– Estamos muito descontentes com o curso das coisas, meu anjo. – A ironia de S. angustiou Catarina – demos-lhe um homem a guardar, só um, e perdeu-o? Onde pára o seu valido com nome de santo?
– Ficou à porta de uma igreja em Nova Iorque, Senhor. – Qual? – The Little Church Around the Corner, a Igreja da Transfiguração, na Rua 29 – Catarina sentiu um abismo entre a grandiloquência do nome oficial e a prosaica localização.
– Logo essa… O homem está mesmo perdido. Só um descrente é que entra nas igrejas à procura de respostas. Quem tem o hábito de lá ir já sabe o que espera.
– Não era o Sandeep que estava a tomar conta dele? – ousou perguntar Catarina, sabendo que são insondáveis os desígnios de quem pode.
Dois sulcos riscaram a testa de S.
– Era. Mas tive que o chamar. – Isto foi dito sem levantar nem gelar a voz, afirmado como quem descreve.
Catarina recebeu isto como a verdadeira forma do poder.
O Senhor começou a crescer, a erguer o seu volume colossal. Ocupava agora toda a imagem, enquanto a voz afundava o tom, martelando cada sílaba. O rosto avermelhava-se mas os olhos vagueavam indiferentes à cólera que os sacudia.
– Tive pena dele, vi-o desesperado, a morte deteve-se na sua vida com impiedade, foi a mulher que agonizou com um sofrimento minucioso; foi o desaparecimento súbito dos pais que afinal não eram os verdadeiros pais, o que lhe impediu de recordá-los amorosamente, retribuindo o imenso amor que lhe deram em vida; foi o desamparo dos filhos de quem ele ouvia o choro sufocado todas as noites, numa tristeza que lhe afugentava o sono eo deixava prostrado de amargura. Tudo isto fez com que a compaixão voltasse a tocar-me e decidi intervir. Sim, resolvi agir. E qual foi o resultado?
Catarina teve a perfeita dimensão da sua fragilidade diante da fúria que vinha ao seu encontro. Naquele instante viu como tudo podia desaparecer num clic. E recomeçar logo a seguir num estalar de dedos, sem sombra de passado. E percebeu que se uma pergunta nunca encontra resposta, é porque deve estar mal feita.
– Esse Francisco Xavier abandonou os filhos, que é a maior das crueldades; ficou cego ao que lhe era oferecido, desdenhou ou ignorou os sinais que lhe foram postos à frente. Para quê? Para correr como uma galinha tonta de enigma em enigma à volta do mundo como uma personagem dos livros daquele locutor de TV, como é que ele se chama? – Catarina lembrou-se mas não disse e S. suspirou enfadado, esvaziando a sua ira. – Tanto acidente para encontrar o nome. Vale a pena juntar mais sofrimento ao sofrimento por um nome? E isto o vosso livre arbítrio?
Houve um súbito silêncio. No ar só os alegres ditongos chineses que se exclamavam da rua. O senhor permaneceu imóvel e Catarina também não se mexeu, mas receou que a transmissão tivesse bloqueado.  S. acabou por fazer um gesto de abandono com a mão.
– O homem já começou a ouvir coisas dentro de quadros. Ainda não descobrimos os limites da nossa paciência, mas não é tolerável que um episódio tão insignificante possa ficar fora de controlo. Vamos acabar com esta deambulação insensata. Nem Boston, nem Atenas. Está na hora, vá buscá-lo e traga-o de novo a casa. À casa de origem. Lisboa.
Catarina endireitou-se na ponta da cadeira, ainda sem coragem para desvanecer a tensão nos músculos.
Não nos deixe ficar mal, Catarina. – disse o Senhor com alarmante  suavidade – Se o seu Francisco Xavier continuar tão aflito para se identificar consigo próprio teremos sempre o recurso de lhe marcar um encontro com Deus. Quando é a pedido não há remorsos.
Um vórtice negro. Desligou.


O telemóvel tocou e veio uma repentina bátega de chuva. Na esquina da 29 com a Madison Francisco viu o nome no visor e lembrou-se da frase: “Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”.
– Não posso viver sem ti. Amo-te. Vou aí buscar-te.

Heróis e Vilãs, ou Quando Eu Era Pequeníssimo

Cheguei tarde mas apareci (sorry, Vasco).

O meu herói, o meu único herói, é o Fantasma, filho de Lee Falk, há poucos dias 74 anos, celebrados num 17 de Fevereiro.

Kit Walker, o Fantasma que conheci há mais de três décadas, era o vigésimo primeiro de uma lista de justiceiros iniciada em 1536, quando Christopher Walker, marinheiro de Portsmouth, antigo grumete da nau Santa Maria, delfim de Cristovão Colombo, foi morto por um pirata da Irmandade dos Singh numa caravela naufragada algures no Índico, ao largo da costa do reino de Bengalla. Christopher Jr, único sobrevivente do naufrágio, é salvo por uma tribo de pigmeus, os Bandar, escravizados há séculos pelos Wasaka, adoradores de Uzuki, o Deus Demónio.

Christopher encontra os restos mortais do assassino do seu pai e, levantando o crânio do facínora, jura dedicar a sua vida “à destruição da pirataria, da cobiça, da crueldade e da injustiça em todas as suas formas. Os meus filhos e os filhos deles seguir-me-ão.”

Depois de resgatar os Bandar do jugo dos Wasaka, Christopher inspira-se nos símbolos de Uzuki para criar um vingador mascarado, defensor de fracos e oprimidos, eterno habitante de uma gruta em forma de caveira, de rosto desconhecido e, por isso, mais temível, com fato púrpura a surgir das profundezas da selva para petrificar os adversários, cujo rosto marca para sempre através do anel, representando o crânio da morte, que usa na mão direita, um anel feito dos pregos que fixaram Jesus na cruz, outrora propriedade de Nero, o imperador pirómano.

Sem recurso a poderes mágicos, poções divinas, insondáveis super-forças ou destinos providenciais, Kit, o vigésimo primeiro “Fantasma que Caminha”, faz uso apenas dos seus talentos naturais, de um espírito inquebrantável, transmitido de pais a filhos durante quatro séculos e das ajudas de Guran, chefe dos Bandar, do lobo Devil e do cavalo Hero.

Depois de ser criado na Caverna da Caveira pela mãe, antiga dupla de Rita Hayworth, Kit continua a sua educação nos EUA, onde conhece Diana Palmer — ela tem 12 anos, eu 9, e é paixão à primeira vista.  Separam-se até aos 18 anos de ambos, quando um Natal em Clarksville os reúne para sempre (Kit é um bocado lento na formalização das intenções, já que  apenas casará com Diana em 1978 — Mandrake e alguns ministros, estranhamente impolutos, comparecem ao copo de água).

De face nunca revelada aos leitores — só os inimigos lhe conhecem o rosto, pouco antes de darem de finados -, o fantasma era tudo o que eu queria ser: forte, justo e, claro, vencedor de corações (16 homens tentaram casar com Diana, mas ela desprezou-os a todos). No traço mítico, muito Stevenson, de Ray Moore, ou na limpidez de Wilson McCoy (entretanto, já históricos como Carmine Infantino ou revelações como Dave Gibbons se enfeitiçaram pelo mascarado), o Fantasma que Caminha foi o meu fato de Carnaval na festa do centro de convívio da única avenida, finda na estação de comboios, de uma terrinha de vento fresco, encostada ao mar, chamada Valadares, onde vivi durante dois anos.

Fiquei em terceiro lugar no concurso da festa, mas nem concorrentes ou júri percebiam porque é que estava enfiado num fato púrpura e de anel de caveira no dedo (pode marcar um homem, eu sei, mas vou recuperando): ninguém sabia quem era o Fantasma. Foi em 1977.

Três anos antes, a um par de quilómetros dali, ainda junto a águas salgadas, numa terrinha ainda mais pequena chamada Lavadores, no tempo em que o meu pai regressava de Londres com o primeiro comboio eléctrico que vi na vida (acho que sempre gostei de comboios por causa desse), deitei-me no beliche de cima do quarto que partilhava com a minha irmã (ela aconchegava-se aos peluches no beliche de baixo), a minha mãe apagou a luz da cozinha, deixando apenas uma luz de presença junto à sala, e e não consegui dormir por causa desta:

A Bruxa Maléfica, circa 1959

Havia um cabide no hall, de sombras recortadas pela luz precária junto à sala. O cabide, olhos fechados, olhos abertos, era igual à Bruxa dos Cornos (sabia eu lá que outras razões nos podiam levar a todos, em namoros certos e difusos, a transportar as mesmas razões em vergonha ou ignorância…). Corrijo: o cabide não era igual à Bruxa Maléfica de “A Bela Adormecida” de Marc Davis (o animador que criará depois essa meia-irmã dickensiana da fada má, a Cruella De Vil de “os 101 Dálmatas), de Walt Disney, Perrault e, em certa medida, de Tchaikovsky e dos irmãos Grimm. Aquele cabide ERA a Bruxa Maléfica.

Com a cabeça debaixo da almofada,o Cabide ganhava as formas e as chamas da Bruxa, convocava os corvos negros, abria os braços para tudo cobrir de escuridão e aproximava-se de mim, passo a passo com os cascos de Lúcifer, os olhos amarelos a brilhar no manto preto, pronta a devorar-me braços, língua e crânio (nessa altura, ainda não tinha ouvido falar daquele senhor austríaco que gostava de histéricas e epilépticas).

A roda roda rodando

Umas horas antes, tinha-a visto no Cinema Vale Formoso — ficava junto à Constituição, na capital dos homens Bês -  a amaldiçoar o baptizado da princesa Aurora, lançando-a, feitiço abaixo, escadas acima, pela torre do Castelo sem Nome onde, 16 anos depois, Aurora irá tocar na roda que roda, picando a mão e sangrando — primeiro sangue, primeiro sexo — para adormecer o reino em trevas de séculos, à espera do beijo de amor e do amor de beijo que a redima.

 

Tirava eu a cabeça do travesseiro e o cabide lá estava, imóvel mas prestes a atacar, os ramos de uma árvore com olhos grandes para te comer, avozinha.

Tinha seis anos, e nunca senti, antes ou depois, tanto medo como no beliche da casa pequena, luz trémula, Lavadores, a norte instante do sol nascente.


Para começar pelo começo, a preto muito preto

Em 1899, Joseph Conrad, estimado marido, arrancava com The heart of darkness, ao seu jeito de pedra na água, o jeito dele, a traçar o caminho mais curto entre a superfície clara e o fundo escuro: The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide. Eu não era nascida. Porém, diante disto, pensei logo em nascer. Não pude, no entanto, por absoluta falta de ainda desinventados pai e mãe.

Em 1951, Graham Greene, estimado marido, arrancava com The end of the affair, ao seu jeito exacto, o jeito dele, de osso limpo: A story has no beginning or end; arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead. Eu não era nascida. Pensei, por ser absolutamente impossível impensá-lo: gostava tanto de ir comprar a primeira edição.. Mas qual o quê?! Tive de conformar-me ao estado de incriada. Que nervos!

Em 1944, Dylan Thomas, marido apenas de Caitlin McNamara — tão mau marido, tão muito amado, tão bom amor mal amado dos dois que ela terá dito no hospital, quando ele já moribundo: Is the bloody man dead yet? -, começou a escrever Under Milk Wood. Entregou a versão final, 9 anos depois, à BBC que, em 1954, e pela voz de Richard Burton, me fez pensar seriamente em nascer, desse por onde desse!  Não consegui: apesar do meu pai já ter idade para ser pai, a verdade é que a minha mãe tinha, e teria ainda por bastante tempo, idade para ser mãe só de bonecas. Não fez mal. O YouTube guardou para mim. Passa-se tudo nos primeiros 30 segundos. Assim é mais fácil acompanhar: To begin at the beginning: It is spring, moonless night in the small town, starless and bible-black, the cobblestreets silent and the hunched, courters’-and-rabbits’ wood limping invisible down to the sloeblack, slow, black, crowblack, fishingboatbobbing sea.

 

Mil e uma noites

A vida não tem gracinha nenhuma. Não me venham cantar a virtude da verdade; nem façam hinos à prosaica realidade. A vida, a prosaica realidade, está todos os dias na Imprensa e faz primeiras páginas infames. Torce-se o jornal e escorre sangue.
O que exalta e nos exalta é a ficção; só a mentira tem imaginação para proclamar o sublime. Experimentem. Viajem por montes e planícies, entrem nos bares mais escusos das mais escuras noites, e nada: chato, flat, plat, só lá encontram a lisa realidade e nem um cavaleiro andante. A vida é primeiro, às vezes segundo acto que nunca chega a terceiro. Tão pouco para uma boa comédia, coisa nenhuma para uma realíssima tragédia.
Don Quixote e Sancho Pança, sim! Nas intermináveis páginas do livro onde existem, nas múltiplas e intraduzíveis línguas em que já foi escrito, proclamam incansáveis a superioridade de um idealismo que resiste ao ridículo.
Os verdadeiros heróis são de papel. Ninguém, nenhuma polícia, nem mesmo o cortejo de um milhão de detectives de carne e osso, se aproximará, debilmente que seja, da rigorosa capacidade dedutiva do britânico Sherlock Holmes ou de Hercule Poirot, de imprestável nacionalidade belga.
Dizem-me que há seres dúplices, manéis de dia, marias à noite, mas na vida topam-se à légua. Só uma imaginação poética e em transe mediúnico teria criado o corpo desdobrável e prodigioso que é, ao mesmo tempo, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Querem provas: leiam o livro, vejam os filmes.
E digo-vos: mesmo nos momentos mais trágicos, quando só a sobrevivência conta, a honesta e nostálgica ficção canta mais alto. Durante a II Grande Guerra, de um lado e do outro da trincheira, a mesma mulher (“husky, sensuous, nostalgic”), Lili Marleen, assombrava os corações dos soldados alemães e dos soldados aliados. Era só um nome, duas palavras a fechar uma estrofe. Nunca ninguém a viu, a essa rapariga lírica e erecta debaixo de um desmaiado candeeiro. Mas todos, soldados, alemães e aliados, agachados ou erectos, a cantaram e perdidamente a amaram.
Não há um recanto da nossa vida, em que a ficção não se intrometa e, despudorada, triunfe. O incauto Édipo dos pés furados mete-se entre o filho que somos e os pais que temos. Lolita, a decotada ninfa, atormenta-nos a maturidade. Othello vem todas as noites instilar um obtuso ciúme na almofada em que afundamos as nossas insónias.
Donde vem este exército de fantasmas, esta legião de incorpóreas entidades? Às vezes, acredito que cada um de nós é como um rei de mil e uma noites a quem, de madrugada em madrugada, a eloquente Xerazade surpreende com lendas e histórias, com poemas e canções. Com tão boa ficção, que préstimo pode ter a vida, a não ser o de, na madrugada do dia seguinte, nos ser revelado o fim da história que ontem à noite nos começaram a contar?

Violentas são as horas da paixão…

Meinrad Craighead, Cântico dos Cânticos, 1966

Basta uma só memória tua para me contrair inteiro.

Respiro o ar, já na barriga revoltado,
E logo se me enche o peito, comovido.
Cai-me a cabeça para trás, um pouco.
O pescoço, levemente contorcido,
Transporta-me para um e outro lado.
Então, de olhos fechados, para te ver,
Procuro inspirar-te, devagar…
E estando consumado o respirar
Expiro deleitado por te ter.

Violentas são as horas da paixão!

Contrariamente ao hábito tranquilo
De um atarefamento quieto de surpresas,
Violentas são as horas da paixão…
Durante as quais ando eu, qual Salomão,
Pulando sobre montes e outeiros,
Espreitando a minha amada p´las janelas
E introduzindo-me na sala do festim,
De onde saio a correr, para lá de mim,
Saltando como o veado, ou as gazelas,
Por sobre todo o monte dos balseiros,
Feliz, sob o olhar da minha amada.

Pois só o afastamento me revela quem tu és:
A cor do teu cabelo,
O tamanho dos teus pés…
E logo de novo o desejo de em ti perder-me outra vez.

Tu trazes-me em desordem que não quis
Para um mundo onde posso ser feliz.
E é por isso, meu amor, que ando cansado:
É por isso, meu amor – por ser amado!

* Escrevo este post, com a devida autorização da minha mulher, acedendo a um pedido da Joana Vasconcelos feito, ali em baixo, num recomeço do Manuel S. (de Salomão) Fonseca.

O tio da América

 

Para os anti-americanos primários vai ser um festim. Sem ofensa, como vão já compreender.
Aqui há tempos, um grupo de paleontólogos da Universidade do Oregon descobriu os mais antigos vestígios de presença humana já encontrados na América. Em relação ao que se sabia, estes “novos” sinais fazem recuar 1.200 anos o relógio da actividade humana no continente em que, não sabendo para onde ia, não sabendo onde estava e já mal sabendo donde vinha,  Colombo tropeçou. Ou seja, os nova-iorquinos, o pessoal de Washington e San Francisco, Obama e Ms. Clinton, sabem agora que há 12.300 anos tinham já uns patuscos tios americanos.
Infelizmente, a herança que receberam, perene embora, não é a mais palatável, não se presumindo que as partilhas venham a desencadear disputas coléricas e fratricidas. Não sou de me pôr a adivinhar, mas cheira-me que ninguém vai querer meter a mão neste património.
Ainda não falei, vou falar: o que os cientistas encontraram foi tão só o esforçado resultado da defecação desses antepassados yankees. Encontraram, pois, excrementos.
Os coprólitos – assim se chama em linguagem de gente aos excrementos fossilizados – foram laboriosa e laboratorialmente analisados, provando-se (sic) serem genuínos. Ao ADN humano aparecem associados uns remanescents genéticos de coiotes e lobos, deduzindo os paleontólogos que, das duas uma, ou esses americanos primitivos tinham feito deles um ululante repasto ou os dissolutos animais decidiram intervir no curso da História, alvejando com uma realíssima mijinha a idiossincrática retro-manifestação dos mais antigos habitantes do Oregon.
Está claro, a esta perfumada herança genética os anti-americanos primários (mesmo alguns secundários) vão chamar um figo. Dirão que a coisa – em particular “aquela coisa” – afinal não começou com Bush e que os antecedentes já vêm de longe. Dirão que a política “neo-con” foi bem adubada por estes “pais fundadores” ou que o cheiro que ressuma da ocupação americana do Iraque é, afinal, milenar.
Sem renegar a minha babada admiração pela América (o que lutei pelas primeiras jeans e pela primordial coca-cola), mesmo eu tenho de reconhecer que aquele resquício dos tempos é inestético e mal-cheiroso e, sobretudo, que o mais humilde gesto humano – que nada, hoje, parece impelir-nos a travar – pode no futuro, por ominosa denúncia genética e datação a radiocarbono, ganhar dura notoriedade que envergonhe os nossos vindouros.
Sejamos humildes e façamos, no nosso dia-a-dia, o que temos a fazer. Com a consciência, porém, de que o resultado não escapará ao apertado crivo dos nossos tetranetos. Olfacto incluído.

quando eu era pequenino, 10

Grandes alegrias trazem lágrimas. Sempre será assim e muito mais assim foi no Natal de 1974. Só vos digo e para vosso sossego: a alegria tem uma ferocidade vaidosa e dramática.
Em 1974, estava em Luanda, cidade sofrida e a caminho da crudelíssima independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família tinha deixado África e eu, nem pai, nem mãe, estava por minha conta, acompanhado por uma pequneina multidão de amigos cujas cabeças, dia a dia, iam rolando à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra que havia? Nem mortos, nem atropelados. Eram apenas nomes inconsoláveis que, dia a dia, a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, e para o que na altura interessava, defuntos irremediáveis e indesculpáveis. E, de repente, dei comigo sozinho, entre o céu e a terra, o mar e tudo. 
No meio desse caos furioso e obsessivo, no meio do fogo amigo e do fogo inimigo de cuja ontologia duvidava, começou a crescer, modesto mas abnegado, o Natal, o meu Natal de 74.
Não sei se foi um sussurro, se foi um piscar de olhos, mas esse Natal, que na Europa calha tão bem aparecer como uma lareira no meio do Inverno, surgiu suave, mais tropical do que nunca, e foi o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano.
O caloroso acolhimento foi duma família africana, comandada por um patriarca como nunca mais encontrei. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos eram uns seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só existem nas grandes sagas familiares. Eu, branco branquíssimo, fui recebido como filho. A geleira, como numa família decente e lindamente mulata se chama a um frigorífico, estava (esteve durantes dois anos) à disposição: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.
Lembro-me de nos organizarmos e traficarmos. Sei que houve vinho, couves e bacalhau a chegar de Portugal. Se algum dia (e peço perdão) o Menino Jesus me tinha parecido anedótico e um pouco tolo, no Verão angolano de 74 tive a impressão de que o Natal era intemporal, robusto e sem caprichos.
Naquela noite de 24 de Dezembro tive a melhor das ceias. De vez em quando, com a irregularidade de nunca pararem, as soviéticas rajadas das AK iam pondo vírgulas e pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. Menos insistentes, com uma delicadeza obsoleta, dois ou três morteiros introduziam a necessária nota de suspense. Coisa pouca e, I promise, nem sequer me estou a fazer interessante. Coisa muita foram as conversas, as promessas, as juras e os choros dessa ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos nossos discursos, tão vibrantes, tão eufóricos, tão nus. Apontavam-nos uma pistola à cabeça e discursávamos. Mesmo mortos, continuaríamos, engajados (explico se me perguntarem), a discursar, e sempre com alegria feroz, vaidosa e dramática.
Foi, imagino que foi, no meio dos discursos, em pleno Natal de 74, ciciado e susurrante, que dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda –  quem sabe se, afinal, o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela amarela no céu vermelho de África.
Para ser completamente franco interessa-me bem mais a a pergunta do que qualquer resposta.

O mais doce começo quando, Amada…

É contigo que estou a falar. Não me interessa nada a literatura do MSF (quem é que se vai esfolar a ler Goytisolo), o rubicundo começo camiliano do JNA, o homem solteiro de Joana d’ Austen. Quero ler-te, quero que me leias, o mais doce dos começos quando, Amada, me disseste:

Beija-me com beijos da tua boca!
Teus amores são melhores do que o vinho,
o odor dos teus perfumes é suave,
teu nome é como um óleo escorrendo,
e as donzelas se enamoram de ti…

E logo eu (seria eu ou não eu?), Amado, te respondi:

Minha amada eu te comparo
À égua atrelada ao carro do Faraó!
Que beleza tuas faces entre os brincos,
Far-te-emos pingentes de ouro
Cravejados de prata.

É este o começo – tu sabes – , o mais doce dos começos.

Uma Questão de Princípios

Foi uma óptima ideia do MSF. Que o JNA já tivera e há muito acalentava, mas in pectore. Extraordinários começos de belos livros. Gostei muito dos textos e dos inícios que escolheram. Apesar de um e outro terem incluído dois dos meus absolutamente preferidos — Pride and Prejudice (Jane Austen) e Rebecca (Daphne du Maurier).

Que fique, pois, bem claro que os começos que se seguem acrescem a estes dois, que estão muito bem onde estão, mas que é como se estivessem também aqui.

A story has no beginning or end: arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead (The End of the Affair, Graham Greene). Gosto muito deste surpreendente começo, e muitíssimo do que se lhe segue. One of my favorite books, ever.  

Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself (Mrs Dalloway, Virginia Woolf). Excelente a tranquila simplicidade deste princípio, que de modo algum nos prepara para a fabulosa intensidade do que vem depois.

No era el hombre más honesto ni el más piadoso, pero era un hombre valiente (El Capitán Alatriste, Arturo Pérez-Reverte). É assim, na voz do fiel, sensato e também valente Iñigo de Balboa, seu escudeiro, que começa a primeira das fantásticas histórias do capitão Alatriste. Foi aqui também que começou o meu encanto com as mesmas, que ainda hoje se mantém.   

Naquele lugar a guerra tinha morto a estrada (Terra Sonâmbula, Mia Couto). Gosto dos começos do Mia Couto. Porque me tocam profundamente, como este, ou porque me apanham de surpresa. Difícil, sempre, é parar.

The first Wednesday in any month was a Perfectly Awful Day – a day to be awaited with dread, endured with courage and forgotten with haste (Daddy-Long Legs, Judy Webster). É o delicioso início de um delicioso livro que me acompanha desde os treze ou catorze anos. Não o empresto: comprei um para as minhas filhas. Não é esta a única parte que fixei. Mas é certamente a que mais utilizo. Quantas vezes, de véspera, antes de adormecer, ou no próprio dia, quando toca o maldito despertador, me ocorre que, pelos mais variados motivos, lá vem um Perfectly Awful Day. E posso garantir que me basta lembrar este trecho e recitar mentalmente a receita da extraordinária Judy para a coisa parecer logo menos negra…        

Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota «Vida de Santa Filomena» e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo – e vivia em Évora com minha avó, Filomena Raposo, por alcunha «a Repolhuda», doceira na Rua do Lagar dos Dízimos” (A Relíquia,  Eça de Queiroz). Não é o meu Eça preferido, mas é absolutamente irresistível. Logo desde este princípio.   

Termino com o belíssimo começo de uma das mais adoráveis histórias para crianças que conheço. Certamente a que mais vezes li às minhas filhas. E das primeiras que elas quiseram ler, sozinhas. Sei-a quase de cor:

Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e  uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas (A Menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen).

Sempre achei, ainda hoje acho, que um dia vou ter uma casa assim. Tal e qual. Só as flores é que em vez de amarelas e roxas serão vermelhas. E talvez também cor-de-rosa. 

O princípio dos princípios

Sei que não é politicamente correcto (um dia ainda hei-de falar nisso), mas não conheço princípio maior e melhor do que este:

«No princípio, criou Deus os céus e a terra.» (Gn. 1, 1)

Um bom princípio

Kamrooz Aram, “Cryptic Summit”, 2007

O sr. Manuel Fonseca pilhou-me uma ideia que eu há muito acalentava. Evocar a ignorância das minhas íntimas e nunca declaradas intenções será por certo desculpa suficiente neste mundo repleto de factos observáveis, mas não o ilibará no meu tribunal subjectivo.
Por isso, façam o favor de ler este post antes do dele, porque essa é a ordem justa.
Como escreveu Frank Herbert na abertura de “Dune” (quem? onde?): “A beginning is the time for taking the most delicate care that the balances are correct.” Ou seja, um livro começa pelo princípio. Duas coisas podem espantar nesta frase: que haja alguém que tenha a lata de registar uma evidência tão pedestre e que haja quem escreva um livro esquecendo esta evidência tão pedestre. Sou capaz de jurar que a segunda é pior que a primeira.
O modo como a narrativa se desencadeia compele-me, a mim leitor instável, a seguir em frente ou a largar o volume logo ali. Às vezes é mesmo em pé na livraria que tomo a decisão, o que faço levando pouco em conta o respeito pelo nome do autor inscrito na capa: as coisas hão de valer por si, ou não. Se tiverem paciência para continuar, partilho convosco um punhado exemplos vividos e confirmados de livros que arriscaram prometer mundos e fundos logo na primeira frase e  me compeliram a escolhê-los on the spot.
Tenho o prazer de vos comunicar que as restantes páginas não desmereceram os votos iniciais


“Naquele ano coube a Martinho Dias Nabasco acompanhar o que restava duma família numerosa e abastada, ao cemitério da terra natal.”
Agustina Bessa-Luís, “A Ronda da Noite”

“Partimos então no jipe, o Paulino e eu, a caminho de Opuho, na Namíbia, pela fronteira de Namacunde, Sta. Clara… Essa foi a primeira viagem… A que estou a fazer agora é a segunda. Vim de avião até Windhoek, aluguei um carro, cheguei a Outjo ao cair da tarde de ontem, vou aqui ficar uns dias, esta é a primeira manhã. Estou a escrever num desses famosos cadernos de capa preta, quer dizer, num caderno feito para durar, para caber tudo nele.”
Ruy Duarte de Carvalho, “as Paisagens Propícias”
Com o livro comprei também um moleskine

 

“Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.”
Nuno Bragança, “A Noite e o Riso”

“A Eufémia Troncha catava-o, fingia estalinhos insecticidas, fazia-lhe com a unha titilações, atritos suaves no casco da coroa, inventava para o nutrir e inflamar carícias e guisados, surpreendia-lhe o apetite com fricassés muito aromáticos, tinha meiguices e candonguices duma donzela que afaga os pombinhos entre os seios virginais, decotava o corpete dos vestidos para lhe escaldar o sangue, fazia trejeitos lascivos de gata que se rebola escandecida nos telhados – uma cróia velha com muita experiência sublinhada.”
Camilo Castelo Branco, “A Corja”

Por fim, a abertura das aberturas que tem o romance todo numa frase (mais o filme):

Last night I dreamt I went to Manderley again.”
Daphne du Maurier, “Rebecca”