Jan chegava sempre a casa do Tio Otto muito mal disposto. A casa do tio encontrava-se nos arredores de Augsburg, a meia hora de carro de Munique, a cidade onde Jan vivia. Aquelas últimas curvas, depois de sair da autobahn e antes de chegar ao portão da casa do tio, faziam-no sempre enjoar. O Tio, vivia com a Tia Franziska numa enorme mansão de pedra castanha com um grande parque em torno. O chão da casa era todo de mármore branco e no grande hall de entrada, posicionadas como sentinelas de cada um dos lados da porta de entrada, estavam duas ânforas romanas cheias de incrustações marinhas. Jan gostaria um dia de poder arrancar aquelas apetitosas incrustações mas nunca tinha tido oportunidade de o fazer. Nesse dia vinham visitar o tio pois este fazia anos. Muitos. 80 e tal tinha dito a mãe. Já ninguém sabia quantos anos tinha o Tio Otto. Demasiados, dissera o pai antes de saírem do carro. Na realidade não eram tios mas sim tios-avôs. O Tio Otto era irmão do Avô Günter, o pai da sua mãe, e que Jan sabia ter morrido na guerra. Em que guerra não sabia bem, mas a mãe tinha-lhe dito que tinha sido numa guerra muito má e que o Avô Günter tinha morrido congelado numa cidade com um nome esquisito, num país longínquo. A mãe gostava muito do Avô Günter mas Jan sabia que ele tinha morrido quando a mãe era pequenina e a família ainda vivia em Berlim. Jan já tinha ido ao cemitério algumas vezes com a mãe ver o túmulo do Avô e sempre se interrogava se teriam trazido o avô congelado de volta para a Alemanha e se estaria ali, debaixo da terra, feito de gelo, duro e transparente.
Quando Jan entrou no grande salão pela mão de sua mãe, todos se viraram e um brouhaha percorreu a sala. Os amigos e amigas do Tio Otto e da Tia Franziska estavam sentados em sofás ou conversando de pé espalhados pelo salão. Jan lembrava-se de alguns deles de outras visitas que ali tinha feito. Estava aquele gordo, com uns óculos redondos e uma cicatriz por cima do olho e aquele que tinha duas bengalas e falava muito alto. Esses estavam sempre juntos. Eram também muito velhinhos como o Tio. Estava também aquela senhora de cabelos amarelos que fumava uns cigarros muito fininhos. E ao fundo da sala, a conversar com o Tio Otto, estava também aquele que não tinha uma mão. Tinha em vez dela, uma espécie de uma pinça de ferro brilhante. Desse, Jan tinha medo. E tinha que confessar que um bocadinho de receio do Tio também tinha. O Tio Otto era muito alto e magro, com o cabelo cortado muito curto dos lados e na nuca tendo apenas uma espécie de estranha escova grisalha no cocuruto da cabeça. Usava sempre botas altas e um casaco cinzento que lhe parecia sempre estar um pouco apertado. Jan nunca o via alegre e quando sorria fazia apenas um esgar com os lábios que durava apenas alguns segundos, pelo que se seguia uma espécie de soluço que o fazia voltar à sua seriedade habitual e hirta postura.
Mas que criança encantadora! — disse uma das amigas da Tia. — Estás cada vez mais alto e forte meu rapaz! – disse o senhor com os óculos redondos sorrindo, desgrenhando com uma mão gorda a cabeleira loira de Jan — Otto! – disse para o outro lado da sala – aqui o teu neto está uma maravilha! — O Tio Otto virou a cabeça e lançou-lhe um olhar glacial – Não é meu neto. É neto do meu Irmão Günter! — proferiu. E de imediato, lançando um olhar na direcção de Jan e esboçando um sorriso, completou enfático – mas é verdade. Um belo naco de gente, este rapaz. Um belo naco de gente! – Ao terminar a frase soluçou, o sorriso desvaneceu-se e voltou ao seu semblante carrancudo e à sua conversa com o amigo da pinça.
A mãe tinha-lhe contado uma vez, após as suas insistentes perguntas sobre o curioso Tio e os seus estranhos amigos, que a seguir à guerra em que tinha morrido o Avô Gunter, o Tio Otto tinha regressado da Holanda, onde tinha estado durante a mesma, e tinha ganho a vida a vender aspiradores. Durante muito tempo, Jan achara que vender aspiradores era uma actividade muito importante e em que os que a praticavam ganhavam muito dinheiro. Todos os amigos do Tio Otto aparentemente tinham também, durante toda a vida, vendido aspiradores. Aliás, eles aparentemente trabalhavam todos juntos. Eram aquilo a que tinha ouvido o pai referir-se, em Inglês, e naquele tom que só usava quando se referia ao Tio Otto e aos seus amigos, como os partners in crime do Tio Otto. A verdade é que Jan tinha uma vez e às escondidas, ouvido o pai dizer que o Tio Otto tinha sido um homem muito mau e que tinha feito coisas terríveis lá na Holanda. Jan lembrava-se por vezes dessa conversa e por isso tinha um bocadinho de medo do Tio. Mas a verdade é que os tios eram quase sempre muito simpáticos com ele. A Tia Franziska dava-lhe sempre chocolatinhos e doces, e em dias de festa como este, quando o pai não estava a ver, o Tio Otto dava-lhe a provar um gole de Champagne que era um vinho cheio de picos como a coca-cola. Mas acima de tudo e sempre que lá ia a casa, o Tio Otto mostrava-lhe os soldadinhos. Ele tinha uma colecção de soldadinhos de chumbo fantástica. Jan nunca a tinha visto toda, mas o Tio, sempre que ele lhe pedia, subia ao escritório e trazia-lhe alguns para ele os ver. Não podia brincar com eles mas podia vê-los de perto na sua mão.
Nesse dia, Jan não sabia o que fazer. Nas festas de casa dos Tios, normalmente brincava lá fora no parque com mais uma ou duas crianças, netas de amigos dos tios, que costumavam lá estar. Nesse dia no entanto, Jan era a única criança e para mais o tempo estava húmido e frio. O pai, como de costume, sentara-se a um canto a ler o jornal, alheado de tudo o resto. A mãe estava numa roda com a Tia e as suas amigas, e o Tio, com os seus amigos, estava sentado no sofá grande do salão a conversar. Fumavam charuto e Jan não gostava nada do cheiro e ainda para mais deviam estar a falar de aspiradores e por tudo isso achou que não era boa ideia juntar-se a eles. Comendo uma grossa fatia de Sachertorte, começou a pensar nos soldadinhos de chumbo. Lembrava-se de uns coloridos e cheios de penas nos capacetes. Pertenciam às divisões imperiais prussianas, tinha-lhe dito o tio. Lembrava-se também de uns outros….
Jan olhou para a escadaria que levava ao primeiro andar. Nunca a tinha subido. Tinha visto o Tio a subi-la várias vezes e a entrar na porta do escritório que era a primeira à direita no alto das escadas. Naquele momento ninguém reparava nele. Talvez pudesse ver toda a colecção. O Tio com certeza que não se ia importar. Com o coração a bater, subiu a correr a escadaria, abriu a porta e fechou-a atrás de si. O escritório estava envolto em penumbra. A janela estava fechada e Jan não conseguia ver onde estava e por isso acendeu a luz. À sua frente o escritório encheu-se de luz. Ao fundo do escritório estava uma enorme vitrine, com duas prateleiras de vidro. Dezenas e dezenas de soldadinhos de chumbo encontravam-se ali alinhadas, numa espécie de parada militar, como se tropas de todos as armas e acabadas de chegar de todas as épocas da história do homem, se tivessem ali reunido para combater uma grande batalha em miniatura. Jan dirigiu-se à vitrine, não resistiu e abriu uma das delicadas portas de vidro. Com muito cuidado agarrou um soldadinho e sentiu-lhe o peso na mão. Era magnífico. Tinha um capacete com uma ponta em bico e uma farda azul, com um capote até aos pés. Tinha uns grandes bigodes enrolados na ponta. Era um dos prussianos. Quanto gostaria de o ter só para si.
Jan estava ainda a admirar o seu soldadinho de chumbo quando de repente lhe pareceu sentir uma presença atrás de si. Só quando se virou e levantou o olhar é que o viu. Deu um salto de susto e largou um grito abafado. De pé, a olhar para ele com um sorriso ameaçador, estava o Tio Otto.
Só passados alguns segundos, quando o seu coração começou a bater mais devagar e Jan olhou bem para a sua frente é que se apercebeu de que tinha sido vítima de uma ilusão. Parecia mesmo o Tio Otto em pessoa, pensou aproximando-se da parede. Diante de si estava um quadro, comprido e até ao chão com um retrato do tio em tamanho natural. Estava vestido de soldado. Tinha uma farda elegante e um boné de pala. Tinha calçadas as suas habituais botas de cano alto e um dos seus pés estava apoiado na jante de um automóvel do qual se via apenas a parte lateral. O Tio Otto parecia muito novo no quadro. E tinha um estranho sorriso que Jan nunca lhe tinha visto. Reparou também no boné. Bem no meio, por cima da pala, estava uma caveira como aquela dos piratas. Um pirata o Tio Otto? A vender aspiradores? No braço direito, reparou ainda que o Tio tinha uma faixa encarnada. E naquela faixa, estava um símbolo. E aquele símbolo Jan conhecia. Já o tinha visto várias vezes pintado em algumas paredes da sua cidade. E tinha-o visto uma vez em casa, num livro do pai.
Jan! O que estás aqui a fazer? – Jan estremeceu de novo em sobressalto. Era o seu pai. – Vamos imediatamente lá para baixo Não te………- o pai de Jan interrompeu a frase e ficou também a olhar para o quadro. Pareceu ficar preso na frase de boca aberta e a mão reprovadora suspensa no ar. O seu estupor durou apenas uns segundos. Depois voltou a olhar para Jan — Não te quero aqui em cima. Se o Tio Otto te apanha aqui estás em péssimos lençóis. – Agarrou Jan pelo braço, deu uma última olhada furtiva para o quadro e desceram os dois, os degraus da escadaria que conduzia ao andar debaixo.
Já só no carro, de volta a Munique, Jan se apercebeu que agarrava ainda com força na mão esquerda, o soldadinho prussiano. O Tio iria seguramente dar pela falta de uma peça da sua colecção! Nunca mais podia voltar a casa do tio. Que vergonha. Que situação aquela em que se tinha metido.
Jan não teve oportunidade de voltar a casa do tio e sofrer a vergonha de ver o seu segredo descoberto. Passadas três semanas da festa de aniversário do Tio Otto, este morreu durante o sono. — Morreu como um santo — referiu a mãe à mesa do jantar no dia em que souberam a notícia. Do outro lado da mesa o pai lançou-lhe um olhar penetrante e cúmplice.
E desde esse dia nunca mais se falou do Tio Otto em casa de Jan.
PS: Tenho um amigo alemão, com quem nos últimos anos, tenho vindo a conversar muitas e muitas horas sobre os anos da Alemanha Nazi e da segunda guerra mundial. Fala de tudo com o grande à vontade que finalmente começa a ser característico da geração de Alemães nascidos nos anos 60 e que não carrega as culpas que carregam (com ou sem razão) as gerações anteriores. Este meu amigo teve um tio-avô que chegou a um alto cargo nas SS e foi um comandante destacado na Holanda durante os anos da ocupação. No final do conflito, este tio foi condenado como criminoso de guerra e esteve muitos anos preso. Ao ser libertado no final dos anos cinquenta fez fortuna como comerciante de aspiradores (!). Este meu amigo sabe hoje na realidade que o seu tio e os seus associados eram todos ex-SS e que a actividade que desenvolviam era uma fachada para branquear dinheiro proveniente de fundos e reservas criados durante a guerra e que redes de ex-SS conseguiram manter após o final da mesma. Em miúdo, o meu amigo recorda-se de ir a sua casa, dos seus estranhos amigos de cabelo cortado à escovinha e velhas feridas de guerra e de ter uma vez entrando no seu escritório, e visto um retrato a óleo, enorme e sinistro, com o seu tio em uniforme com a suástica no braço. A história aqui em cima é naturalmente uma fantasia à volta desse evento marcante na vida deste meu amigo.
PS2: Se tiverem ficado a interrogar-se que coisa é uma Sachertorte, terão de admitir que não são fãns do Nanni Moretti e que têm que vir a Milão ou a Munique rápidamente para poderem comer uma fatia.


































